Esse pretinho faz milagres

Texto publicado no Nós da Comunicação

Imagine se alguém fala, do nada, a seguinte frase para você: “Esse pretinho faz milagres”. Você não entende nada, né?

Agora, imagine estas 3 situações:

1

Uma amiga vira para a outra e fala: “Estou me sentindo tão gorda”.

A outra responde: “Experimenta este vestido”.

Minutos depois, já usando o vestido, a primeira amiga responde: “Esse pretinho faz milagres”.

2

O homem vira para a esposa e diz: “Esse sapato está tão velhinho”.

A esposa se vira e fala: “Usa isto”. E entrega uma cera de engraxate para ele.

No final do dia, o marido comenta com a esposa: “Esse pretinho faz milagres”.

3

Uma amiga confidencia para outra: “Minha vida tá um inferno, tudo dá errado”.

A outra amiga entrega um papelzinho para ela dizendo: “Faz uma consulta com ele… que ele resolve”. Na semana seguinte, as coisas começam a melhorar e a primeira amiga chama a segunda amiga: “Esse pretinho faz milagres”.

Desculpe se o último exemplo é “politicamente incorreto”, mas é bom, né?

A questão aqui é o contexto. Eu começo este post com essa brincadeira para contar um caso de um colega, que é responsável pela comunicação interna em uma empresa de grande porte.

Ele me contou que foi feita uma pesquisa interna na empresa e o resultado mostrou uma insatisfação grande com a área de comunicação interna. Com a pesquisa nas mãos, eles juntaram vinte pessoas de diferentes divisões da empresa e fizeram uma reunião de discussão para fazer o diagnóstico da situação. A maioria dessas pessoas já eram conhecidas como pessoas colaborativas e contribuidoras da área de comunicação interna.

O diagnóstico foi o seguinte:

A empresa publicava suas comunicações quase sempre uma única vez, ou seja, no estilo “one shot”. Por exemplo, o anúncio de algo importante era feito através da publicação de uma única nota na intranet. A área de comunicação interna considerava que uma única ação de comunicação era suficiente e que repetir a mesma notícia em outras mídias internas poderia ser “over”. A pesquisa mostrou exatamente o contrário. A maioria das pessoas se sentia desinformada, pois muitas informações importantes passavam despercebidas.

As comunicações eram descontextualizadas. Quase sempre faltava dizer como aquela informação se conectava com as prioridades e a estratégia da empresa. A pesquisa mostrou que as comunicações eram boas e com conteúdo relevante, mas faltava uma roupagem mais estratégica e uma visão mais ampla. Alguns falaram que as comunicações eram muito “departamentalizadas“.

A comunicação interna usava muito acrônimos e siglas internas. Muitos funcionários não entendiam a linguagem utilizada. Esse problema ficava mais crítico para os novatos da empresa. Como a empresa contratava muita gente, por conta de seu crescimento acentuado, esse problema se tornava ainda mais sério.

Curiosamente, a área de comunicação interna da empresa reagiu muito bem à pesquisa. Em vez de se justificar, eles entenderam o problema e rapidamente trataram de agir.

Tomaram as seguintes ações:

1- Comunicação mais estratégica

Eles desenvolveram um plano de comunicação para explicar a estratégia da empresa, mas em pequenas doses. O plano contemplava ações durante 12 meses, através de diversas mídias e com participação de diversas fontes diferentes, como executivos, funcionários e parceiros de negócios.

2- Contextualização

Decidiram que, a partir daquele instante, a grande maioria das comunicações contará com um parágrafo ou gráfico evidenciando onde aquele fato ou projeto se conecta com a estratégia da empresa.

3- Repetição

Toda a comunicação passou a ter seu conteúdo divulgado nos diversos canais de comunicação internos. Por exemplo, uma comunicação publicada na intranet, também passou a ser publicada nos murais, porém, em formato mais reduzido e objetivo.

4- Novos canais internos de comunicação

Além da intranet, da newsletter quinzenal, dos murais e da revista interna, eles decidiram implementar mais dois canais de comunicação: um canal de comunicação exclusivo para gerentes (via uma newsletter mensal) e um blog.

O canal de comunicação para gerentes passou a ser um canal importante para a comunicação de recursos humanos. O objetivo do blog foi criar um canal de comunicação de duas mãos com os funcionários. Lá, as principais matérias publicadas na intranet eram reproduzidas com algum comentário ou visão alternativa dada por um executivo ou por algum influenciador importante.

5- Reunião de pauta

Eles criaram uma reunião de pauta com todos os colaboradores de comunicação interna. Isso não era feito antes e o objetivo foi buscar mais alinhamento e sinergia do time.

6- Descomplicação da empresa

Foi criado um pequeno plano para explicar a organização e as diversas áreas de atuação da empresa. Também decidiram que, em qualquer comunicação publicada, as siglas e acrônimos deveriam ser explicados.

7- Glossário

Como um passo importante para o ponto acima, eles criaram na intranet uma espécie de glossário da empresa. Esse seria um espaço vivo com o objetivo de ser alimentado regularmente. Eles disseram que estavam cogitando a hipótese de criar um wiki para esse glossário, onde todos os funcionários poderiam colaborar.

Enfim, gostei muito desse caso. Especialmente porque o time de comunicação interna não se satisfez com que o aprenderam da pesquisa. Eles foram muito além. Estou convencido que eles devem estar surpreendendo a empresa por conta de todas essas iniciativas. O fato é ainda muito recente.

Quem sabe no final do ano eu tenha um feedback?