Direto do Festival de “Publicidade” 2011 em Cannes – Parte 2

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Como afirmei no post anterior, o evento mudou de nome. Não é mais um festival apenas de publicidade, agora é o Festival de Criatividade de Cannes Lions. Apesar da agenda e do nome mostrarem que o transatlântico da comunidade publicitária está mudando de curso, a grande maioria dos prêmios e reconhecimentos ainda parece seguir a modalidade antiga, reconhecendo fortemente a criação, e em segundo plano, a mídia. Calma, calma, essa é uma mudança lenta, mas tenho que reconhecer que é um passo e tanto ver alguém no palco de Cannes falar que o marqueteiro tem que se comportar como um publisher e que seu sucesso dependerá da sua capacidade de gerar conteúdo e engajar as pessoas.

Olhe você próprio para as empresas, o departamento de marketing sempre foi mais destacado do que o departamento de RP. Faça o mesmo exercício com as agências e obterá o mesmo resultado, ou seja, a área de marketing tradicionalmente tem mais recursos e atenção das organizações. Isso é natural, afinal marketing tem a missão básica de gestão da marca e da geração de demanda, intimamente conectada com a área de vendas. Mas soa muito interessante ver os gurus de marketing falarem que o futuro de marketing tem por base a geração de conteúdo relevante, o desenvolvimento de relacionamento e a interação contínua, atividades que a área de Press Relations já desenvolve rotineiramente desde os primórdios. Aliás, vários aqui falaram que as áreas de Marketing, Comunicação e Relações Públicas serão um único grupo num futuro próximo. Não foi por acaso que uma das sessões, apresentada por Edward de Bono, recebeu o título: “Is creativity for Mad Men or PR Gurus?”.

Até o momento, as três sessões mais cheias que assisti foram as da Time Warner, do YouTube e do Google.

A sessão da Time Warner foi um painel de debate com Aaron Sorkin (roteirista, produtor e dramaturgo) e David Simon (autor, jornalista e escritor/produtor de séries de TV americanas). Eles passaram todo o tempo dizendo que a TV não morreu e nem vai morrer. Recorrentemente falaram que o conteúdo gerado pelas TVs é excepcional e relevante. Ouvi frases do tipo: “The future of TV is everywhere” e “TV is going to internet”. Depois perguntaram para eles qual eram os programas de TV preferidos deles. Achei muito chato. Uma parte divertida foi quando o moderador perguntou para Aaron Sorkin a respeito do Facebook. Ele disse que não usava Facebook, que achava meio chato. Saiba que Aaron Sorkin ganhou um Oscar por ter escrito o roteiro do aclamado filme The Social Network.

A sessão mais cheia que presenciei foi a do YouTube. Quem diria que, no festival da publicidade, o pessoal quisesse assistir o que o YouTube tinha pra dizer. Tinha gente pendurada nos lustres do auditório. Todos os degraus das escadas estavam ocupados pelo povo. Foi uma decepção pois não foi ninguém do YouTube para falar, a empresa decidiu patrocinar o painel e trazer dois intelectuais para falar. Na introdução do painel de debate, o moderador falou: “YouTube tem sido uma plataforma de provocação e facilitação”. Será que é só isso mesmo? Será que não é muito mais do que isso? Os debatedores foram Simon Mainwaring (especialista em brading e redes sociais, blogueiro) e Michael Wolff (jornalista e escritor). Quer saber? São dois caras muito chatos, com papo enfadonho, apesar do tema ser legal. Falaram coisas óbvias: “nós somos consumidores e cidadãos ao mesmo tempo”, “consumidores têm que tomar uma more active role”, “como as marcas podem se conectar mais com as necessidades da sociedade, especialmente em relação ao meio-ambiente e à sustentabilidade”. O resultado do debate foi que vi vários pessoas saindo no meio da apresentação. Faltou paixão e vibração na conversa. Quem não saiu acabou passando o tempo brincando com seus gadgets.

O auditório estava lotado quando Eric Schmidt, ex formal CEO do Google nos últimos 10 anos, foi ao palco. Simplesmente espetacular. Os 45 minutos de speech já valeram o evento inteiro e depois ficou fácil de entender porque o Google chegou onde está hoje. Eric demonstrou uma clareza ímpar para descrever as transformações da sociedade, falou da revolução liderada pelo consumidor, disse que a revolução da tecnologia não é importante, mas sim a revolução da informação. Afirmou claramente que os governos e a própria sociedade ainda não entenderam o novo poder nas mãos dos consumidores, que estamos apenas começando uma jornada de transformação. Ele também disse que os países emergentes, todos com grande população, apresentam um extraordinário potencial de negócios, que terão crescimento quântico nos próximos anos com a chegada da banda larga às diversas classes sociais, e que esse fenômeno permitirá um crescimento exponencial da Google, bem como outros players como Facebook e Twitter. Ou seja, milhões ou bilhões de pessoas entrarão na internet e “o negócio da Google vai crescer fortemente, vai dobrar rapidamente de tamanho, sozinho, sem fazer força. É ou não é fascinante?”, perguntou Eric para a platéia com sorriso farto e brilho nos olhos. Ele também divagou sobre a nova sociedade, a explosão do conteúdo produzido pelas pessoas e seus gadgets, como organizar isso e torna-lo disponível de todos para todos, as “infinitas” possibilidades do novo marketing e mostrou que o futuro vai ter por base o “social demographic picture”, onde a Google já tem uma posição privilegiada. Ele diz que não é relevante como a Google vai se beneficiar por conhecer o perfil demográfico de cada usuário (é relevante sim, Mr Schmidt!!! e isso deveria e deve ser discutido), mas como o usuário vai se beneficiar ao ter uma internet e todos os serviços associados totalmente adaptados e ajustados individualmente, em todas as plataformas tecnológicas existentes. E disse: “Imagine estar andando na rua, e de repente o seu smartphone avisa automaticamente que na loja do outro lado da rua chegou aquele produto que você tanta gosta e que, naquele momento, a loja vai fazer um preço e condições especiais somente para você, que você poderá pagar através do telefone naquele instante (uma tecnologia chamada mobile payment), e que eles entregarão na sua casa, de forma que você não precisará ir na loja e nem sair com o produto nas mãos naquele instante”. Eric afirmou que a plataforma tecnológica que combina posicionamento geográfico, perfil demográfico, comércio eletrônico, pagamento eletrônico por dispositivo móvel e outras tecnologias já está disponivel. Google e outras empresas estão trabalhando nessas tecnologias para torna-las viáveis como negócio.
Por fim, perguntado sobre qual foi o maior desafio em todos os dez anos como CEO da Google, Eric respondeu: “As pessoas pensam que o maior desafio das empresas são os competidores. Isso é um erro. O maior problema é sempre interno, é mobilizar os funcionários, fazê-los pensar diferente, quebrar barreiras e se envolver emocionalmente com a empresa, com nossos sonhos e projetos. É por isso que temos na Google um ambiente realmente especial de trabalho. Queremos as pessoas por inteiro lá dentro, felizes e realizadas, sendo elas mesmas”.

Mas o evento não foi formado somente pelas apresentações acima, eu vi umas bens legais que vou deixar para contar no próximo e último post da série de Cannes.

Para fechar o post, veja alguns slides de várias apresentações que assisti. Muito papo de colaboração, “engagement” e “open innovation”. Será que os criativos das agências gostam desse papo?