Mais sobre o Futuro dos Jornais

Existem duas entrevistas que li recentemente que trazem comentários que geram reflexão nessa questão do futuro dos jornais.

A primeira é a entrevista de Matías Molina dada para a revista Imprensa – edição de Jun/08. Infelizmente não achei a entrevista completa online, somente na mídia impressa. Veja os trechos que destaquei da entrevista:

“Imprensa – Na sua visão, qual é o Futuro do Jornais?

Matías Molina – O futuro dos jornais ninguém sabe. Agora, eu acho que a morte anunciada dos jornais é muito prematura. Segundo a Organização Mundial dos Jornais, nunca se leu tanto jornal como hoje e nunca houve tantos jornais no mundo. Aumentou a leitura dos jornais pagos bem como a dos jornais gratuitos. O que está havendo é o declínio da leitura em algumas áreas, como nos Estados Unidos e em algumas partes da Europa. Já na Ásia está havendo uma procura pelo jornal. Na Índia, por exemplo, o número de leitores aumenta exponencialmente. Na América Latina, ocorreu uma queda na leitura dos jornais, mas agora está havendo uma retomada. No Brasil, leitura de jornais é muito dependente da situação econômica do país. Enquanto no hemisfério norte essa queda é lenta e contínua, no Brasil, não.”

“Imprensa – Segundo o Editor do jornal Espanhol El País, a internet vai salvar o jornalismo. O senhor concorda com essa previsão? Qual será o papel dos Blogs nesse processo?

Matías Molina – Acho que a internet sozinha não salva. Eu vejo o jornalismo futuro como uma mistura do jornal impresso e do jornal de internet. A sinergia é muito grande. Em algumas publicações, há seções exclusivas da internet que estão na edição impressa. O papel dos blogs é muito interessante, mostra uma grande variedade de opiniões. Mas os blogueiros dependem totalmente do jornal impresso, porque ele não tem a informação. O blog não tem três ou quatro correspondentes no Iraque, como tem o The New York Times, por exemplo. Como diz um ditado da imprensa inglesa. “a informação é livre, mas a notícia é cara”.

“Imprensa – Qual seria o caminho?

Matías Molina – Eu não sei qual é o caminho. Eu acho que um jornal frente à internet vai ter de mudar. Hoje, os leitores são muito mais participativos do que eram antes. Os jornais estão sentindo isso de maneira mais ou menos instintiva. As cartas dos leitores são um exemplo disso. Não se dá muita atenção a elas. Cartas, quando bem feitas e bem editadas, são o principal ponto de leitura do jornal. No The Times, de Londres, isso é muito tradicional. A seção de cartas é a mais lida do jornal, porque é muito bem editada e mostra a reação espontânea do leitor. Por um lado, o jornal tem ficado muito mais aberto à recepção do leitor, sabendo o que ele quer e o atendendo muito mais. O Globo, por exemplo, dá um grande espaço para o leitor. Isso mostra uma visão bem aberta. O jornal de qualidade deve dedicar uma parte do jornal a um número pequeno de leitores – uma elite de leitores. Isso é muito importante, porque eles encontram no jornal o que não vão encontrar em outros lugares. Tem de se acreditar na inteligência dos leitores.”

A outra entrevista que quero registrar é a de Ricardo Gandour, Diretor de Conteúdo do Grupo Estado, para a revista Negócios da Comunicação, edição 31, de jan/fev/2009. Eis aqui o link para a entrevista completa.

Quero destacar um trecho da entrevista dele:

“Revista – O que mudou para os jornais depois da chegada da internet?

Ricardo Gandour – … O jornalista tem sido um intermediador da informação. E a internet é uma plataforma essencialmente desintermediadora. No comércio, coloca comprador e vendedor em contato, põe o poder na mão do comprador. É muito fácil fazer a analogia disso na informação. A internet também é desintermediadora, na medida em que eu posso me organizar e criar o meu próprio ‘jornal’ na internet. Eu passo a ser editor. Mas organizar o mundo dá muito trabalho e eu acredito que, apesar de toda a tecnologia, o ser humano não vai deixar de delegar ao jornalista a missão de organizar o mundo para ele. Esse trabalho jornalístico jamais vai desaparecer e a sociedade não vai perder de vista o valor que ele tem. Como se eu dissesse: ‘vou continuar confiando que um grupo de pessoas, jornalistas, olhe o mundo por mim e me ofereça a sua leitura editada do que aconteceu. E neles eu confio‘. Claro que aí tem a opção de marca – e isso independe da plataforma, se é escrita, falada, transmitida, interativa ou não.”

Os trechos das entrevistas acima fazem a gente pensar, né? Mas tenho comentários sobre elas.

É verdade o que Matías Molina disse: o blogueiro não tem três ou quatro correspondentes no Iraque como tem o The New York Times. No entanto, por outro lado, o blogueiro, muito provavelmente, vai achar e coletar informação de centenas de blogueiros residentes no Iraque. Ou seja, a informação vai até ao blogueiro. Esse é o mundo virtual. Enfim, o blogueiro não tem três ou quatro correspondentes no Iraque, ele tem centenas…

Já em relação ao que disse Ricardo Gandour, que “o ser humano não vai deixar de delegar ao jornalista a missão de organizar o mundo para ele”, eu tenho minhas dúvidas. Eu pergunto: Será que precisamos de alguém filtrando e editando as informações prá gente? Será que ter alguém filtrando as informações não inibe a discussão e a apresentação de posições contraditórias? A tal linha editorial dos jornais não é um filtro? É acho que sim. Eu não sei dizer se isso é positivo ou negativo, mas o fato é que nós delegamos para o jornal, aquele que assinamos e recebemos em casa, o poder de filtrar e editar as informações para nós. Ou seja, praticamente contratamos alguém para selecionar e analisar as notícias prá gente. Não sei não, mas tenho a impressão que o mundo vai na direção oposta, especialmente a geração mais jovem de internautas, cada vez mais queremos independência e pluralidade de opiniões.

No entanto, eu concordo que o grande desafio do mundo atual é organizar a grande quantidade de informação disponível. Nos EUA já está surgindo um conceito chamado “information agenda”, mas isso é papo para outro post.