IBM no Brasil: Como tudo começou

IBM no Brasil: Como tudo começou

IBM no Brasil: Como tudo começou

2608 1902 Mauro Segura

Essa é uma história que nunca foi contada. O vídeo descreve a trajetória de Valentim Fernandes Bouças, o brasileiro empreendedor responsável pelo início da operação da IBM no Brasil em 1917, a primeira operação da empresa fora dos Estados Unidos.

A história é incrível e surpreendente, com várias imagens e fotografias da época, resultado de meses de profunda pesquisa. Em plena primeira guerra mundial, um contador com dívidas e sem dinheiro, parte para Nova York e consegue um encontro com Thomas Watson, presidente da CTR, que era o nome anterior da IBM. Não deixe de ver a história desse encontro e suas consequências. Essa não é uma história trivial e você não vai ficar indiferente.

 

Transcrição do vídeo:

O ano era 1917. Um contador nascido em Santos, sem dinheiro, vai para Nova York e propõe ser representante de uma empresa no Brasil. Cem anos depois essa empresa é a IBM Brasil. Nesse vídeo, eu vou contar essa história, com detalhes que nunca foram contados antes.

Em 1915, ele era vendedor de caixas registradoras. Ele queria crescer profissionalmente e foi convencido por um amigo que deveria ir para Nova York para tentar ser representante de alguma empresa norte-americana, só assim ele poderia crescer. Ele não era um sujeito de muitas posses, até vivia com dificuldade, já era casado e tinha duas filhas. Essa éa história de Valentim Fernandes Bouças.

No livro de sua autoria, chamado “Estudos Econômicos e Financeiros”, Valentim Bouças conta detalhes de sua aventura. Esse livro você não encontra nas livrarias, somente na Biblioteca Nacional do Rio e um exemplar que eu comprei de muitos meses procurando em sebos. É um livro raro.

Em 1915, ele vendeu todos os móveis da casa, pegou metade do dinheiro e comprou uma passagem para Nova York. Deu a outra metade do dinheiro para a esposa, que se mudou para a casa dos pais, enquanto ele zarpava de navio para os Estados Unidos. Era a primeira vez que ele viajava para fora do país. E ele não falava bem o inglês não, rateava muito.

A viagem para New York aconteceu em setembro de 1915. Ele dormiu num pensão, almoçou pão com banana e vendeu as abotoaduras, como ele conta, para poder sobreviver. Foi uma dureza. Mas no final ele acabou voltando de lá para o Rio com a representação de uma empresa, mas que acabou não dando certo. Dois anos depois, o navio que levou Valentim Bouças para os Estados Unidos foi atingido por um submarino alemão e naufragou.

Em 1917, agora com 26 anos de idade, Valentim decidiu voltar a Nova York. Mas para continuar essa história, você precisa voltar no tempo para entender o ano de 1917.

1917 é apenas 11 anos depois do primeiro voo do 14 Bis, de Santos Dumont. É 5 anos depois do naufrágio do Titanic. Em 1917, os Estados Unidos declararam guerra contra Alemanha e dispararam uma enorme campanha de recrutamento. Estávamos no meio da primeira guerra mundial. Viajar de navio era muito perigoso. O telefone ainda era luxo para poucos, o aparelho na época era esse aí mostrado na imagem. Fogão nas casas do Brasil eram a lenha ou a carvão. Alguns ricos tinham fogão a querosene. Geladeira como conhecemos não existia. Enfim, a vida era dura… muito dura. Foi nesse ambiente que Valentim decidiu ir para Nova York.

Ele tinha tomado conhecimento de que a Diretoria de Estatística Comercial, nome anterior do IBGE, estava procurando novos métodos para coleta de dados. Aqui no Brasil já se tinha ouvido falar nas máquinas Hollerith, que nos Estados Unidos eram comercializadas pela CTR, mas ninguém conhecia muito bem. Isso soava como uma oportunidade para o Valentim Bouças.

Foi nesse ambiente que, no dia 8 de fevereiro de 1917, Valentim embarcou no Rio de Janeiro, no navio sueco, chamado SAGA. O navio a vapor chegou em NY no dia 27 de fevereiro, ou seja foram 19 dias de viagem. Os registros de sua viagem existem e provam a sua chegada. Em seu livro, Valentim diz que foi em busca da concretização de seus sonhos.

Ele chegou na cidade e já encontrou os automóveis dominando o ambiente. As carruagens quase não existiam mais. O ambiente era bem diferente do Rio de Janeiro. Valentim foi na cara de pau para Broad Street número 50, em Manhattan. Lá ficava a CTR, o antigo nome da IBM. Ele conseguiu subir no décimo sétimo andar. Esse era o andar onde ficava Thomas Watson, o presidente da empresa.

No livro Men-Minutes-Money, escrito por Thomas Watson, o próprio Mr. Watson dá detalhes de como foi o primeiro encontrou com Valentim.

O Valentim, ao chegar no andar, falou com a secretária de Thomas Watson que gostaria de falar com ele. A secretária bateu lá no escritório do Mr. Watson e disse: “Tem um jovem do Rio de Janeiro, dizendo que chegou agora de navio e querendo falar com o senhor”. Thomas Watson decidiu receber o rapaz. Afinal ele tinha vindo de muito longe. Valentim disse que já conhecia as máquinas da CTR. E pediu que ele fosse o representante dessas máquinas no Brasil. O interesse dele era pelas máquinas Hollerith, que eram perfuradoras, leitoras e tabuladoras de cartões de papel, tecnologia super inovadora na época.

Naquela época, Thomas Watson não investia dinheiro em países fora dos Estados Unidos. A CTR ainda estava se estabelecendo. A empresa vendia suas máquinas para intermediários que então faziam as vendas. Eles não tinham capital. Eles não se achavam prontos para estabelecer a sua própria malha de distribuição. Portanto a proposta de Valentim era algo completamente inusitado.

Aí Thomas Watson perguntou para Valentim: “quanto dinheiro você tem?”. Valentim Bouças foi direto na resposta. Ele disse que não tinha nenhum dinheiro. Ele disse que não tinha nada, apenas dívidas e que teve um negócio que não deu certo. Falou que estava procurando um outro negócio para que pudesse pagar as dívidas. Disse que gostava muito de trabalhar e que conhecia muita gente importante no Brasil, o que não era tanta verdade assim. Também contou que já havia trabalhado como vendedor de caixa registradoras e era um excelente vendedor.

Mr. Watson deve ter ficado admirado com a sinceridade do rapaz e fez mais uma pergunta: “Você tem uma família?”. Valentim respondeu que tinha uma esposa e três filhos.

E Mr. Watson disse: “Meu jovem, eu acredito no que diz. Vou dar uma chance para você. Como nós não temos muito capital para aventuras estrangeiras, eu darei para você o agenciamento das máquinas se você conseguir obter clientes para pagar pelo aluguel delas, com pagamento adiantado de 1 ano para as máquinas tabuladoras, mais empacotamento, frete e seguro”. Foi assim que tudo começou. Estava aberta a primeira porta para o início da IBM no Brasil.

Valentim voltou para o Rio, alugou um escritório, na Avenida Rio Branco. O pagamento do aluguel daquele escritório chegou a ficar atrasado mais de 8 meses, a dificuldade financeira era muito grande. O acordo de representação da CTR representava o ganho de 2% de comissão para Valentim Bouças por cada máquina alugada. No mesmo ano de 1917, o primeiro contrato foi assinado e os dólares remetidos para Nova York. Com aquele pagamento adiantado, estava assegurada a primeira remessa das máquinas e uma remessa de cartões.

Obter contratos com as condições impostas por Mr. Watson não era nada fácil, mas a assinatura do primeiro contrato com a Diretoria de Estatística Comercial do Ministério da Fazenda encheu o Valentim Bouças de coragem de seguir adiante. A verdade é que faltava capital no Brasil e o mundo vivia a primeira guerra mundial. Pagar 1 ano adiantado e em dólares era um grande desafio. Mas havia outro desafio: os funcionários públicos recebiam as novas máquinas com muita desconfiança e muita reserva, eles não assimilavam muito bem a necessidade de novos métodos de estatística e contabilidade. Essa foi, provavelmente, a principal razão para o Valentim criar a empresa Serviços Hollerith.

As máquinas da CTR eram vendidas, mas o maior desafio era operar as máquinas, que exigiam profissionais treinados e comprometidos. Com a Serviços Hollerith, Valentim resolveu o problema pois a empresa fornecia os serviços para a operação das máquinas. O que nos primeiros anos se mostrou como um terrível desafio depois surgiu como uma nova oportunidade de negócio. Ou seja, a fórmula era: os clientes alugavam as máquinas da CTR e contratavam a Serviços Hollerith para operá-las.

Nos anos seguintes, novos contratos foram fechados. Em 3 anos já não havia nenhuma diferença nas condições de negócios realizadas pela CTR nos Estados Unidos ou no Brasil. O censo demográfico e social do Brasil realizado em 1920 só foi possível graças ao uso intensivo das máquinas da CTR.

O Valentim Bouças inicialmente estava interessado somente nas máquinas Hollerith, mas ao obter a representação da CTR, ele acabou trazendo para o Brasil todo o conjunto de produtos que a CTR vendia nos Estados Unidos, como balanças, relógios etc.

O ano de 1924 marcou o início de uma nova era da CTR no país. Em dezembro, a empresa foi definitivamente estruturada no Brasil, na qualidade de filial estrangeira da IBM, o novo nome da CTR, registrado em maio daquele mesmo ano nos Estados Unidos. Para comandar as atividades da IBM no Brasil, o Valentim Bouças foi designado gerente geral a partir de 1o. de janeiro de 1925.

Numa convenção em 1933, Thomas Watson comentou sobre esse primeiro encontro com Valentim Bouças em 1917. Ele disse que quando deu a representação da IBM para Valentim, ele não fez nenhum favor. A oportunidade não existia. Foi Valentim que criou a oportunidade. O mérito era 100% dele.

Eu sou muito sincero sobre isso – nós realmente não demos nenhuma oportunidade ao Valentim Bouças. Ele criou a oportunidade. Quando damos para uma pessoa um território nos Estados Unidos, ou em qualquer outro país, onde o nosso negócio está estabelecido, onde temos clientes, amigos e organização, nós podemos dizer que estamos dando uma oportunidade para uma pessoa. Mas quando simplesmente damos a uma pessoa o privilégio de nos representar em um país onde nossos bens são desconhecidos, onde são aplicados impostos de 300%, eu gostaria que todos me explicassem onde está a oportunidade. O Sr. Bouças criou a oportunidade. (Trecho do livro Men-Minutes-Money, de Thomas Watson, pág. 780)

A história de Valentim Bouças é de um sucesso retumbante. Ele ganhou vários prêmios importantes dentro da IBM. No ano de 1937, na Convenção Mundial de Vendas, o Valentim foi o grande homenageado daquela convenção. Ele bateu vários recordes, como em 1937 quando ele conquistou o seu décimo segundo clube 100%. Naquela época era um recorde.

Thomas Watson por diversas vezes em seus discursos citou o nome de Valentim Bouças como exemplo de líder de negócios: visionário, engajador e empreendedor.

Seu conhecimento do negócio, sua visão do futuro, nos ajudaram a construir nossas vendas em todos os países do mundo. Todas as pessoas no nosso negócio sabem o que o lema “Pense” significa para nós e sua importância em nosso trabalho. O Sr. Bouças representa o melhor modo de pensar que possivelmente teria qualquer homem em nossa empresa, ou em qualquer empresa. (Trecho do livro Men-Minutes-Money, de Thomas Watson, pág. 782)

A admiração era mútua e Valentim acabou se tornando um amigo mais próximo de Mr. Watson, indo muitas vezes para os Estados Unidos, acompanhando seu líder em várias viagens de negócios, inclusive na Europa, e também frequentando a casa de sua família.

Valentim passou a vida toda elogiando a visão e o investimento que Mr. Watson fez com ele. Falava o tempo todo que Mr. Watson ajudou nos tempos difíceis e que sempre acreditou no potencial do Brasil, o que deu segurança para o crescimento e desenvolvimento da empresa dentro do país e na criação de um relacionamento de confiança entre a IBM e seus clientes.

No ano de 1930, Valentim começou a ganhar destaque no empresariado do Brasil. Ele frequentemente representou o Brasil nas negociações econômicas e financeiras entre Brasil e Estados Unidos, da década de 30 até o início da década de 50. Ele foi um dos responsáveis pelo acordo da dívida externa que o Brasil tinha com os Estados Unidos em 1944, desempenhando um papel fundamental na promoção do comércio entre os dois países. Em 1951, ele foi membro da Comissão Brasil-Estados Unidos para o Desenvolvimento Econômico.

Em 30 de junho de 1949, trinta e dois anos depois daquele ano de 1917, a IBM e a Serviços Hollerith se separam de forma tranquila e harmoniosa. No mês anterior, maio de 1949, Valentim Bouças e sua esposa foram convidados para uma festa na residência de Thomas Watson, em Nova York, em um evento que também teve a presença do presidente do Brasil. Esse certamente foi o momento mais marcante do fim do relacionamento comercial. No entanto, Valentim continuou amigo de Thomas Watson.

Em 1956 falecia Thomas Watson, com 82 anos de idade.

Em 8 de maio de 1956, Thomas Watson passa o comando para Thomas Watson Jr. Seis semanas depois Thomas Watson morre de um ataque cardíaco. 

Valentim Bouças faleceu no Rio de Janeiro, no dia 2 de dezembro de 1964, com 73 anos de idade. Ele se casou duas vezes e teve seis filhos.

Valentim Bouças foi um empreendedor obstinado, corajoso, visionário, otimista incansável e um brasileiro que sonhava com um país integrado com o mundo. A IBM no Brasil cresceu nas primeiras décadas graças a ousadia de Valentim Bouças, de sua incrível capacidade de tomar riscos, de não pensar pequeno e entender que tecnologia traz progresso e desenvolvimento.

O nome de Valentim Bouças e IBM são inseparáveis.

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Pesquisa, criação e produção de Mauro Segura.

Principais fontes:

  • Livro Men-Minutes-Money de Thomas Watson
  • Livro Estudos Econômicos e Financeiros de Valentim Bouças
  • Livro Pai, Filho e Cia de Thomas Watson Jr.
  • Livro IBM Brasil 80 Anos
  • Jornal A Noite de 1 de fev de 1950
  • IBM Archives

Músicas:

  • Your Precious Love – John Deley and the 41 Plays
  • Ether – Silent Partner
  • Ticker – Silent Partner
  • Sunday Plans – Silent Partner
  • How it Began – Silent Partner
  • Pelo telefone – Donga e Mauro de Almeida

 

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