Inovação Colaborativa – Entrevista para o jornal O GLOBO

Neste domingo, 27/10, na coluna Click! de Paula Dias, do caderno Boa Chance do jornal O GLOBO, foi publicada uma entrevista minha a respeito de Inovação Colaborativa. Por motivos óbvios, a entrevista foi editada e resumida. Abaixo publico a entrevista na íntegra, versão estendida, sem cortes, com autorização do jornal.

1) Em primeiro lugar, por que o seu blog se chama “A quinta onda”?
O nome “A Quinta Onda” vem de uma matéria publicada na VOCÊ S/A de Julho de 1999, em plena bolha da internet, mas especificamente de um texto escrito por Clemente Nóbrega chamado “A quinta onda é seu futuro”. O artigo foi emblemático. Tinha uma parte do texto mais ou menos assim: “O fato central é a internet. Sabemos que estamos decolando rumo a algo, mas não sabemos ainda. Só sabemos que é algo grande e transformador”. Esse conceito ficou na minha memória e foi a inspiração para o nome do blog. Aliás, até publiquei um post sobre isso. Acesse AQUI.

2) Você defende a ideia de que as empresas vivem um impasse entre a vontade de serem globais (o que tende à padronização) e inovadoras ao mesmo tempo. Como é possível conciliar esses dois caminhos?
Independentemente do tamanho da empresa, o importante é ela criar um ambiente de contínua inovação, é incentivar e desafiar os funcionários a pensarem diferente, é criar um ambiente intensamente colaborativo e por foco nas pequenas mudanças. Mas isto não acontece de forma espontânea. A inovação nas grandes empresas tem que se estabelecer de forma estruturada, através da criação de mecanismos estruturados de regular interação entre os funcionários, parceiros e clientes. O conceito é simples: para ser global você precisa ser inovador. E inovação não acontece por combustão espontânea, tem que ter metodologia e processo estruturado.

3) Esse dilema leva à ideia de que o ambiente corporativo pode limitar a capacidade criativa dos funcionários. Você concorda com isso?
Sim. Concordo. A capacidade criativa está intimamente ligada às ferramentas e aos mecanismos colaborativos existentes dentro das empresas. Mas o mais importante é a cultura corporativa. As empresas abertas e transparentes têm muito mais chance de terem funcionários criativos e visionários do que as outras. O mundo de hoje exige funcionários questionadores e polivalentes. Este é mais um desafio de cultura do que de ferramental.

4) No seu blog você diz que as empresas têm percebido que a inovação não está só em seus pólos tecnológicos, mas sim em todos os níveis organizacionais. Como os altos executivos podem centralizar e se aproveitar dessas ideias?
Criando mecanismos de captura e compartilhamento dessas ideias. Isso pode ser feito através de fóruns, reuniões, mídias sociais e outras ferramentas de colaboração entre os funcionários. Mas não basta capturar de forma estruturada essas ideias. É necessário que exista uma estrutura que trate das ideias recebidas e invista na evolução delas, até se tornarem, de fato, projetos de sucesso nas empresas. Enfim, para inovação se tornar algo concreto para a empresa é necessário investimento e mecanismos estruturados.

5) Você fala ainda da capacidade que a crise teve, principalmente nos EUA, de mudar paradigmas. Diante de tantas demissões, ter um emprego fixo numa grande empresa não é mais sinônimo de estabilidade e segurança, o que contribui para o surgimento de uma mentalidade empreendedora. O que pessoas com esse perfil mais têm questionado dentro do ambiente corporativo? E o que as empresas podem fazer para mantê-las motivadas?
O sucesso das redes sociais, especialmente no Brasil demonstra que as pessoas querem conversar e colaborar umas com outras. Isso acontece em casa e nas empresas. O que as pessoas esperam dentro das empresas é um ambiente mais aberto, de mais discussão e colaboração, com mais transparência, diminuição da hierarquia organizacional e busca do desenvolvimento contínuo. Acredito que as empresas têm que investir nesta direção para atender a demanda desse novo perfil de trabalhador, especialmente da geração Y.

6) O que você acha que vai acontecer quando os jovens da Geração Y, que prezam por inovação e colaboração dentro do trabalho, chegarem aos cargos de chefia?
Não tenho dúvida de que haverá uma aceleração na transformação das empresas frente ao perfil da geração Y. Aliás, isso já está acontecendo.

7) Quais são os principais impactos gerados com a chegada de novas tecnologias e ferramentas digitais ao mercado de trabalho? A inovação colaborativa deixará de ser um desafio para as grandes empresas?
Acredito que a inovação colaborativa será sempre um desafio porque não depende somente das ferramentas digitais ou das novas tecnologias. Inovação colaborativa depende de uma decisão estratégica da empresa e de sua cultura. Por outro lado, é importante dizer, que as novas ferramentas digitais ajudam muito na superação do desafio, especialmente de tempo. Eles permitem acesso fácil e rápido ao conhecimento, compartilhamento de ideias, quebra da barreira geográfica e hierárquica, comunicação direta sem intermediários, estabelece referências, etc. Aí vale a pena acessar um post onde escrevi bastante sobre isso. Acesse AQUI.

8) Muitas empresas bloqueiam o acesso dos funcionários a redes sociais e sites de relacionamento, alegando que essas ferramentas são responsáveis por quedas de desempenho e produtividade. Você acha que é só isso mesmo? Ou existe uma preocupação sobre o que os funcionários comentam sobre a empresa na rede?
Meu entendimento é que as empresas imaginam que a produtividade vai diminuir porque ainda não enxergam as redes sociais como ferramentas de trabalho. A geração Y tem uma percepção completamente diferente disso. E eu também. Existe um estudo feita pela Universidade de Melbourne da Austrália que diz que os empregados que usam a internet para fins pessoais durante o expediente são 9% mais produtivos do que aqueles que não usam.
A queda de desempenho e produtividade não é culpa das ferramentas sociais, afinal, elas são só ferramentas de trabalho. O que rola nas redes sociais dentro de uma empresa é um mero retrato do que já rola nos corredores e dentro das salas de reunião, portanto, as redes só potencializam a cultura e os desafios já existentes dentro das empresas. Minha visão é diferente. Eu acho que as redes sociais dentro da empresa aumentam a produtividade, pois passam a exigir mais responsabilidade e cumplicidade dos funcionários, criando mais abertura e transparência.
Uma pesquisa nos EUA mostrou que os executivos das empresas se preocupam muito com os riscos de segurança e de danos à reputação da empresa que a mídia social pode causar. O relatório também evidenciou uma grande preocupação dos executivos com a produtividade dos funcionários. Ironicamente, apesar de todo esse “medo”, os mesmos executivos declararam que as redes sociais são importantes para melhorar a comunicação da empresa, interna e externa, para a construção da imagem e reputação da marca. Todos esses itens de preocupação tem que ser foco de educação e orientação por parte da empresa. Um guia corporativo para uso de mídia social é pré-requisito.
Enfim, a entrada das empresas nas redes sociais é uma caminho inevitável. Vivemos uma era de transformação profunda na forma como as empresas se comunicam e se relacionam, internamente e externamente. Eis dois links para os estudos: