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Leng Jun e o segredo da percepção humana: como nossos olhos pintam a realidade

  • há 3 dias
  • 11 min de leitura

Atualizado: há 18 horas

Há pouco tempo vi um post de @Marcelo Lobianco no LinkedIn sobre Leng Jun, um renomado artista chinês conhecido por suas impressionantes pinturas hiper-realistas, frequentemente confundidas com fotografias devido ao altíssimo nível de detalhe.


Fiquei encantado com as imagens e fui pesquisar mais sobre o artista. Nos vários artigos que li, eu me deparei com o artista sendo chamado de “o maior mestre do hiper-realismo no mundo”. 

 

Descobri que Leng Jun passa meses pintando um só quadro. Existem impressionantes retratos pintados por ele. Daí, uma pergunta passou a martelar na minha mente:  porque gastar meses para elaborar uma pintura hiper-realista manualmente se uma câmera ou smartphone pode capturar tudo instantaneamente com incrível qualidade?

 

Naveguei na internet movido por essa pergunta sobre percepção e me deparei com o incrível artigo “The paradox of Leng Jun: between mirage and truth”, de Hervé Lancelin. Em tradução livre para o português: “O paradoxo de Leng Jun: entre a miragem e a verdade”.

 

O artigo analisa a obra de Leng Jun e me fez ver a sua obra muito além das pinturas incríveis e técnica infalível, me permitindo fazer um paralelo de vida. O autor chamou isso de “paradoxo fundamental”.  

 

Embora a técnica obsessiva de Leng imite uma fotografia com um nível de minúcia e perfeccionismo que desafia a nossa percepção, o verdadeiro significado de seu trabalho vai muito além da apuração técnica, obstinação e virtuosismo esmerado.

 

Leng Jun e sua arte hiper-realista
Leng Jun e sua arte hiper-realista

O olho humano vê diferente: o paradoxo revelado

 

E, então, o artigo me surpreende, estampando uma intrigante resposta para a pergunta grudada em minha mente, tendo por base uma afirmação dada próprio artista: “o olho humano vê diferente da câmera”. Ou seja, para Leng Jun, ele não reproduz a realidade. O meu queixo caiu!

 

A “verdade visual” do que vejo através dos meus olhos é filtrada pela minha percepção individual, que é diferente de uma câmera e de qualquer outra pessoa. A ilusão de que vejo "a mesma coisa" que os outros veem é um enorme equívoco de minha parte e da experiência humana.

 

"A maior ilusão é acreditar que vemos a realidade como ela é, e não como somos." - adaptação da frase de Anaïs Nin, escritora francesa.

 

Quando contemplo uma pessoa, uma paisagem ou uma obra de arte, tenho a ingênua crença de que a minha percepção corresponde à realidade objetiva. Entretanto, cada percepção de olhar é um ato de cocriação, tal qual o trabalho de Leng Jun. O resultado é sempre único e irreproduzível. Isso me disparou muitos insights e uma vontade imensa de me aprofundar mais nesse poderoso conceito filosófico.

 


O que Maurice Merleau-Ponty me revelou sobre minhas lentes invisíveis

 

O filósofo Maurice Merleau-Ponty afirma que a percepção humana nunca é uma recepção meramente passiva, mas uma combinação entre o que está lá fora e quem está aqui dentro.

 

Ou seja, quando eu observo uma pessoa, eu não estou vendo uma "entidade fixa", mas sim projetando sobre ela todo o meu repertório emocional, cultural, histórico, vieses, preconceitos, enquanto simultaneamente recebo dela sinais que a minha subjetividade decodifica de maneira única. Isso parece explicar tanta coisa nas relações humanas.

 

Esse mesmo filósofo, em sua obra mais famosa, chamada “Fenomenologia da Percepção” (que nunca tive coragem de comprar por ser um livro de quase 700 páginas e acho que não vou dar conta), cita: "O mundo não é o que eu penso, mas o que eu vivo”.

 

Na internet, encontrei uma adaptação da frase acima: "Não vemos o mundo, vemos o nosso mundo."



Maurice Merleau-Ponty
Maurice Merleau-Ponty

 


O experimento mental: como dez pessoas veem a mesma pintura

 

Imagino o seguinte experimento mental sobre percepção: dez pessoas contemplando uma pintura de Leng Jun durante alguns minutos. Em seguida, peço para que cada uma delas descreva o que viu e o que interpreta do quadro.

 

Certamente teremos dez versões diferentes da “mesma” obra. Algumas pessoas verão uma certa predominância de luz, outras de sombra; algumas perceberão um ar de melancolia, outras de serenidade; algumas destacarão os olhos da pessoa retratada, outras as mãos.

 

A metáfora acima pode ser aplicada perfeitamente nas relações humanas: cada um de nós é simultaneamente artista (criador) e espectador daqueles que conhecemos. Dizendo de outra forma: cada um de nós constrói uma percepção própria e diferente de pessoa para o mesmo ser humano.

 

“Nossa percepção é sempre uma colaboração entre o que está diante de nós e os fantasmas que trazemos dentro” - Maurice Merleau-Ponty

A pintura hiper-realista de Leng Jun - detalhe da obra "Portrait of Xiao Jiang"
A pintura hiper-realista de Leng Jun desafia a percepção humana - Detalhe da obra "Portrait of Xiao Jiang"

 


Como a descoberta de Amy Cuddy expõe nosso "piloto automático" relacional

 

Essa ideia de que nossa percepção é instantânea e enviesada encontra eco na psicologia social.

 

Em suas pesquisas, a psicóloga Amy Cuddy demonstrou que o nosso cérebro forma a impressão inicial sobre alguém em duas dimensões principais: competência e calor humano. Ao conhecermos alguém, nossa impressão inicial é imediatamente submetida ao mais poderoso e subjetivo dos filtros: nosso arquivo emocional pessoal.

 

Essas duas dimensões respondem a perguntas primordiais e inconscientes: “Essa pessoa é capaz?” e “Essa pessoa tem boas intenções?”. É um atalho evolutivo do nosso cérebro para avaliar rapidamente se alguém é uma ameaça ou um aliado.

 


O "Arquivo Emocional": nosso museu pessoal de memórias

 

Esse arquivo emocional pessoal não é um registro objetivo, mas um museu afetivo onde memórias, traumas, esperanças e amores passados atuam como lentes coloridas e filtros distorcidos.

 

Aqui o conceito de Maurice Merleau-Ponty é reforçado: nós não percebemos o "outro nele próprio", mas o outro em nós, filtrado pela trama de nossas experiências passadas. Como disse o filósofo, a nossa percepção é sempre uma associação entre o que está diante de nós e os fantasmas que trazemos dentro. É a tal da cocriação que citei anteriormente.

 

Cada memória significativa, positiva ou traumática, funciona como uma camada de tinta translúcida sobreposta à nossa lente de ver o mundo. Ela não impede a visão, mas altera inevitavelmente as cores e formas do que está do outro lado.


 

O exemplo prático: como um timbre de voz pinta alguém

 

Vou dar um exemplo prático de como essa percepção filtrada funciona.

 

Se um estranho possuir um timbre de voz parecido com o do meu pai, muito provavelmente, antes de qualquer ação, vou sentir uma sensação de acolhimento e, então, vou "pintá-lo" (como Leng Jun) em minha mente com tons de confiança e segurança, ou seja, criarei uma aura afetiva que recobrirá a sua imagem real.


Pensando inversamente, se esse mesmo estranho fizer um gesto que me soe estranho (um certo levantar de sobrancelhas ou um modo de olhar mais sisudo e frio), que lembre alguém que me prejudicou no passado, isso pode precipitar dentro de mim uma camada de desconfiança ou frieza que, inevitavelmente, recobrirei sobre essa pessoa.


 

Viés implícito: quando nosso cérebro confunde passado e presente

 

Este fenômeno é um dos maiores obstáculos para uma percepção clara. A psicóloga chama de “viés implícito” ou “reativação emocional inconsciente”, quando o cérebro confunde o presente com padrões passados.

 

Veja esse interessante vídeo sobre “viés implícito”, que explora o tema de forma ampla (está disponível legendas em português).

 

A consequência é profunda: eu nunca me relaciono puramente com o "ser" do outro, mas com a narrativa que minha mente tece sobre ele. Ter a consciência sobre isso é muito poderoso e fundamental, porque ajuda na clareza e evolução dos meus relacionamentos.

 

Nunca nos relacionamos com o ser, mas com nossa narrativa sobre ele

 

Para conhecer melhor o trabalho de Amy Cuddy, recomendo assistir a sua interessante palestra “Your body language may shape who you are” - Sua linguagem corporal molda quem você é – no canal do TED Talks no Youtube. Vale muito a pena.


TED - Your body language may shape who you are - Amy Cuddy

 

Por isso o retrato mental que faço de uma pessoa é menos um documento fiel e mais uma pintura expressionista, onde as cores verdadeiras do modelo se misturam inevitavelmente com a tela de fundo de minha própria subjetividade.

 


Humildade perceptiva: o primeiro passo para ver melhor


Acredito que reconhecer esse processo é uma atitude de humildade da nossa capacidade de percepção, que podemos chamar de “humildade perceptiva”, o que me leva a pergunta: a minha reação perante alguém é uma reação real a quem ela é ou a quem a minha subjetividade me faz acreditar que ela seja?

 

Essa pergunta simples - “Estou reagindo a você ou à minha história?” - é um interruptor que pode desligar o piloto automático das minhas reações emocionais. É o primeiro passo para limpar um pouco as minhas lentes e permitir que o outro, em sua essência singular e complexa, comece a surgir no meu quadro mental.

 


Neuroplasticidade: a boa notícia sobre nosso cérebro "preguiçoso"

 

A neurociência revela que nosso cérebro nunca para de se reconectar. Escrevi sobre isso em um antigo artigo publicado no blog, chama-se “Como nosso cérebro nos engana: a neurociência por trás das nossas ilusões cotidianas”.


No artigo exploro como essa "máquina fantástica" dentro de nossas cabeças opera muitas vezes em piloto automático, guiando nossa vida através de hábitos e vieses inconscientes.


TED - Não deixe o seu cérebro te sabotar - Martha Gabriel

 

Aqui reside a convergência poderosa entre ciência e filosofia. O que Merleau-Ponty descreve como a “colaboração entre o que está diante de nós e os fantasmas que trazemos dentro” é, na linguagem da neurociência, o funcionamento dos circuitos neurais pré-estabelecidos que o nosso cérebro preguiçoso ativa para economizar energia.

 

Cada pessoa que encontramos, cada memória que evoca uma reação, é processada por uma rede neural única, formada ao longo de toda a nossa vida.

 

Como escrevi no artigo, “não há dois cérebros iguais” e “percebemos o mundo de acordo com crenças e atitudes gravadas, em vez de ver as coisas como são”.


 

Cada cérebro é único, cada percepção é singular

 

Portanto, o arquivo emocional pessoal que “pinta” os meus retratos mentais das pessoas que me cercam é, na verdade, uma paisagem física no meu cérebro. Os “fantasmas” de Merleau-Ponty são padrões neurais consolidados. A boa notícia, que ambas as perspectivas confirmam, é que essa não é uma sentença imutável.

 

A neuroplasticidade, que é a capacidade do cérebro em criar novas conexões, é o equivalente biológico da “humildade perceptiva” da qual preciso.


Se é fácil criar novas fiações neurais, como afirmei no artigo, então também é possível, com atenção e intenção, limpar gradualmente as lentes distorcidas com que vejo os outros.


Neuroplasticidade e Exercício Físico

Leng Jun, em sua lentidão obsessiva, causa uma ruptura nesse “piloto automático” perceptivo. Eu também posso fazer isso, admitindo que o meu cérebro me “engana” com suas interpretações rápidas e enviesadas, desacelerando, me questionando se a imagem que formo de alguém é um retrato fiel ou apenas a reativação inconsciente de um circuito antigo dentro da minha cabeça.


 

A metáfora perfeita: a miopia de Leng Jun e nossa cegueira social

 

E, talvez, a metáfora mais perfeita para tudo isso venha do próprio corpo do artista.

 

Leng Jun sofre de miopia severa. Para pintar com tamanha fidelidade, ele precisa se aproximar até que seu nariz quase toque a tela. Ele pinta, literalmente, no limite da "cegueira".

 

Essa imagem é muito poderosa: a hipervisibilidade obsessiva do detalhe só é possível através de uma extrema proximidade, que para qualquer outro seria um embaçamento total. É a contradição em imagem: enxergar a verdade de um poro requer abrir mão da visão do rosto inteiro.


Eu sou miope (mas não severo), isso me despertou para um detalhe técnico que torna essa imagem ainda mais intrigante. Na miopia severa, o globo ocular é mais alongado que o normal. Isso significa que o olho de Leng Jun está anatomicamente configurado para o perto. O que para qualquer um seria um esforço de aproximação, para ele é o único ponto onde o mundo ganha nitidez. A miopia que tira dele a visão do todo é a mesma que lhe entrega o detalhe sem esforço, provavelmente com um nível de nitidez extraordinário.


Isso me fez pensar: talvez a condição dele não seja um obstáculo que ele precisa contornar para pintar. Talvez seja, simplesmente, a anatomia que permite o que ele faz. Ele não vê o rosto inteiro enquanto pinta os olhos. Ele vê os olhos. Depois o nariz. Depois a curva da boca. O rosto completo não está na tela diante dele, mas na memória que ele constrói, fragmento por fragmento, a partir do que pôde enxergar em alta definição.


Não é muito diferente de como funciona a percepção para todos nós, míopes ou não. A gente nunca vê o outro inteiro de uma vez. A gente constrói o outro aos pedaços: o que viu num dia, o que ouviu noutro, o que projetou num terceiro. A diferença é que, para Leng Jun, essa verdade filosófica ganhou forma no corpo. A metáfora virou anatomia.


Penso nisso e me lembro de como, às vezes, passo por uma rua que conheço há anos e só num dia de desaceleração forçada percebo uma árvore, uma textura de parede, um detalhe que sempre esteve lá. Não sei se isso tem nome. Talvez tenha a ver com algo simples: a dificuldade de ficar tempo suficiente diante de uma coisa só. Leng Jun, com o nariz na tela, me lembra disso.



A contradição em imagem: ver o poro, perder o rosto

 

Esse gesto de Leng Jun, aproximar-se até quase tocar a tela, não é apenas a descrição de seu método. É também um contraponto à condição da sociedade atual. Vivemos na era da hipervisibilidade, ilustrada por uma inundação de imagens, estímulos e informações sobre os outros, sempre à distância de um clique. Contudo, essa suposta visão total, muitas vezes, gera uma cegueira por conta da complexidade e da abundância. Vemos muito, mas compreendemos pouco. Infelizmente julgamos pelos filtros, pelos circuitos neurais rápidos, pelas impressões que economizam energia.

 

A postura física de Leng Jun me ensina que para verdadeiramente ver, seja uma tela ou uma pessoa, é necessário desacelerar, aproximar-se até o desconforto e aceitar que, por um instante, o foco no detalhe me deixará cego para o resto do mundo.


Só nessa intimidade quase tátil com a superfície (da tela, da pessoa sendo pintada) a verdadeira profundidade pode, paradoxalmente, emergir.

 

Leng Jun - a miopia que desafia a percepção humana - foco no detalhe e cego para o resto - Nome da Obra: Portrait of Xiao Jiang
Leng Jun - a miopia que desafia a percepção humana - foco no detalhe e cego para o resto - Nome da obra: Portrait of Xiao Jiang

O passado não é fixo: como reescrevemos nossa história

 

Pensando em tudo isso, lembrei de um artigo que escrevi tempos atrás, sobre como o tempo funciona na nossa cabeça. Nele, eu cheguei a uma conclusão que se conecta diretamente com essa história toda de percepção: o passado não é fixo.

 

Sabe aquele “arquivo emocional” citado anteriormente que usamos para pintar os retratos dos outros? Ele não é um álbum de fotos guardado na prateleira. Ele parece uma história que a gente reescreve conforme vai vivendo. Um timbre de voz que hoje me traz confiança, amanhã, talvez, depois de uma nova experiência, pode ganhar um significado diferente.

 

É isso que torna a "humildade perceptiva" ainda mais importante. Não se trata apenas de duvidar da primeira impressão, mas de entender que a lente que usamos para ver o mundo é polida pelo tempo que vivemos. Cada novo olhar, cada tentativa de aproximação como a de Leng Jun, não muda só o que vemos no presente. Aos poucos, vai mudando também o significado do que guardamos do passado.

 

Tudo é fluido. Tudo muda... a nossa percepção muda até o nosso passado.

 

No fim, perceber o outro e ressignificar nossas próprias memórias são dois movimentos do mesmo processo: o de nos tornarmos observadores mais conscientes, da tela, do rosto alheio e da paisagem sempre mutável da nossa própria história.

 

O que você vê depende de onde você está. O que você enxerga depende de quem você é.

 


O verdadeiro paradoxo: enxergar exige desconfiar dos próprios olhos

 

Assim, o que começou como uma efêmera curiosidade sobre a técnica de um pintor se transformou em um mergulho profundo sobre mim mesmo, um percurso tão filosófico quanto científico.

 

Aprendi que a busca pela verdade do outro, seja na tela de Leng Jun, seja no rosto de quem está à minha frente, não começa com um olhar mais aguçado para fora, mas com uma corajosa desconfiança para dentro. Exige que primeiro compreendamos a miragem incessante que nosso próprio cérebro produz, essa máquina maravilhosa e traiçoeira.

 

O verdadeiro paradoxo, então, é este: para ver o outro, é preciso primeiro duvidar do próprio olhar. Não da visão, mas da interpretação instantânea que a mente coloca sobre tudo. É um movimento duplo: afastar-se dos próprios filtros e aproximar-se, com a lentidão de Leng Jun, da complexidade que nos cerca.


Só nessa lucidez conquistada é que a figura do outro encontra, por fim, a luz para se revelar em suas cores próprias, distinta, inteira, sem as tinturas da nossa história.



Detalhe da obra de Leng Jun
Detalhe da obra "Portrait of Xiao Jiang" de Leng Jun

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