Um crachá de 100 anos

Um crachá de 100 anos

Um crachá de 100 anos

5472 3648 Mauro Segura

Essa é uma história pessoal.

Em 2017, a IBM Brasil celebrou o seu centenário no país. Foi um ano mágico e super especial para o time de marketing e comunicação, que junto com um grupo enorme de funcionários, criou, planejou e executou o plano do centenário. Eu até já publiquei essa história aqui dando muitos detalhes. O que não contei foi uma experiência que vivi que me ensinou algo.

Um dos projetos envolvendo o extenso plano do centenário foi a criação de um crachá especial de 100 anos para todos os funcionários. Dentro da IBM nós chamamos de “badge”, e não crachá… coisas de nossa cultura interna. Debatemos muito internamente o custo e a complexa logística operacional por trás daquele projeto. O conceito era simples: cada funcionário deveria enviar uma foto de preferência (qualquer uma mesmo… podia ser com a família, pulando de bungee jump, com seu animal de estimação, etc), escrever o nome da forma que desejar (inclusive apelido) e nós produziríamos um badge especial, entregando em mãos em todos os escritórios no Brasil ao longo dos eventos que estávamos realizando. Pode soar simples, mas não era não. Estávamos falando de milhares de funcionários de todos os lugares do país.

Vale dizer que esse badge especial de 100 Anos não iria substituir o badge oficial da empresa, que é o sistema oficial de acesso e controle de todos os colaboradores e visitantes que transitam nas instalações da companhia. Portanto, assumíamos o conceito de que o funcionário usaria 2 badges pendurados do pescoço.

Confesso que não comprei a ideia. Fui reativo. O projeto era caro, complexo de execução, consumiria muito tempo e recursos e eu via pouco retorno. O funcionário usando dois badges no pescoço também não me parecia razoável. O engajamento dos funcionários seria totalmente voluntário, ou seja, nós teríamos que fazer um planinho de comunicação e engajamento para que os funcionários voluntariamente se increvessem, mandassem os dados e a foto. Depois entraríamos nas fases de produção e distribuição. Tudo isso com pressão de custos e tempo, além da necessidade de muito controle operacional. Tal cenário trazia desafios para um projeto que não me sensibilizava, ainda mais considerando que muitos outros projetos me pareciam muito mais legais e mereciam maior atenção de nossa parte.

Enfim, fizemos uma mini-pesquisa, porém informal. O resultado dessa mini-pesquisa, associado ao entusiasmo do time de comunicação, mostrou que o projeto merecia seguir adiante… mesmo com a minha pouca apreciação pela iniciativa. Esclareço que eu não era contra o projeto, apenas achava que o investimento não justificava o retorno.

O projeto deu um trabalho do cão. O time executor do projeto pirou no meio de tanta complexidade. Isso tomou meses de execução, mas o mais importante é que foi um sucesso. Foi incrível ver milhares de pessoas pedindo e cobrando a entrega do badge, ver os funcionários orgulhosamente “vestindo” aquele símbolo dos 100 Anos com paixão. Eu até esperava que isso acontecesse, mas não com aquela energia toda.

No dia que recebi o meu badge, foi como se eu recebesse uma jóia. Olhei para aquela peça e um filme me passou na cabeça. De repente voltei no tempo, toda a minha carreira me veio a mente: os anos de dedicação, as conquistas, o meu desenvolvimento como pessoa e profissional, a confiança mútua que eu e essa empresa sempre cultivamos um ao outro, tudo isso transbordou naquele momento. Peguei aquele badge e o pousei na mesa. Tal qual uma jóia, aquilo não poderia ser arranhado ou tocado. Aquilo era muito mais do que um simples crachá divertido. Nunca usei. A querida Flavia Apocalypse, que liderava comunicação interna, nunca entendeu aquele meu movimento. Por diversas vezes ela insinuava me perguntar porque eu era o único de toda a empresa sem vestir aquele objeto.

Passei todo o ano com aquela jóia na minha frente. Eu olhando ela… e ela me olhando. Na verdade, eu via naquilo não somente algo que refletia a minha carreira e os anos de dedicação que dei e recebi dessa empresa que admiro. Era muito mais. E também não era apenas algo que lembrava que 2017 era um ano especial para a empresa. Aquele badge representava todo o trabalho realizado por mim e o time na concepção e entrega do Projeto Centenário. Liderar integralmente a celebração de 100 anos de uma grande empresa é uma oportunidade única para qualquer profissional de marketing e comunicação, e eu vivi isso com um grupo talentoso de pessoas, durante o ano inteiro de 2017. Tudo isso convergia para aquele objeto, que precisava ser preservado e exposto de alguma forma.

Foi isso que fiz agora. E o resultado está na foto publicada nesse post. A jóia está preservada para sempre.

Aprendi nessa minha história que as pessoas são tocadas por coisas simples, não importa se são objetos, experiências e relacionamentos. Nós idealizamos e executamos muitas atividades complexas no Projeto Centenário. Certamente o projeto do badge não foi o mais caro, complexo e impactante, mas talvez tenha sido o que mais tocou o coração das pessoas. As pessoas demonstravam orgulho de carregar aquela peça no peito, havia algo no ar que ia muito além do que uma bela peça de comunicação e engajamento.

Enfim, obrigado Flavia, Evelyn e Giulia. Essa foi uma conquista e ousadia de vocês. Vocês são as responsáveis por isso. Lembro muito bem das nossas conversas para fazer isso acontecer e os imensos obstáculos que eu coloquei no caminho. Vocês conseguiram enxergar coisas que eu fui incapaz de imaginar, e isso foi mágico. É através de experiências como essa que a gente cresce como pessoa e profissional.

1 comentário
  • “As pessoas são tocadas por coisas simples”, realmente Mauro, se tocamos o coração é aí que temos certeza que estamos rumo a felicidade e fazendo a coisa certa. Por mais difícil que seja, a recompensa é maior.

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