Quando não nos sentimos prontos
- Mauro Segura
- há 4 dias
- 8 min de leitura

O pânico e angústia de não se sentir à altura
Recentemente assisti um filme divertido. Chama-se “Habemus Papam”. O filme estreou na Itália em abril de 2011, portanto é um filme antigo. Alerto que nos próximos parágrafos têm spoilers do filme.
Por conta da morte do Papa, o conclave do Vaticano se reúne para escolher o seu sucessor. Após várias votações, inesperadamente e contra a sua vontade, o cardeal Melville é eleito papa. Os fiéis, amontoados na Praça de São Pedro, aguardam a primeira aparição do escolhido, mas ele não vem a público por não suportar o peso da responsabilidade. Está em pânico!
Tentando resolver a crise e evitando um escândalo mundial, os demais cardeais resolvem chamar um reconhecido psicanalista para tratar o novo Papa. O desafio é que o psicanalista é ateu. Nada parece surtir efeito. E, depois de alguns dias com o mundo suspenso, vagueando solitariamente pelas ruas de Roma, o Papa eleito tem de encontrar a coragem necessária para tomar a única decisão possível.
O filme é engraçado pois faz uma sátira inteligente do Vaticano, mas ele tem na essência uma reflexão sobre a dúvida, a angústia e a vulnerabilidade do ser humano diante do peso de uma responsabilidade que não se sente capaz de carregar.
Momentos da vida em que “eu não estava pronto”
Nas minhas mentorias profissionais, esse roteiro de “não me sinto pronto” parece se repetir continuamente, nas mais diversas situações e dimensões.
Eu tenho várias histórias pessoais em que eu não me sentia pronto para carregar determinada responsabilidade. Do meu lado profissional, um bom exemplo aconteceu em 2005, quando eu ocupava a posição de liderança de Marketing e Comunicação para América Latina, na Unisys, empresa de TI. Naquele ano, eu recebi a missão adicional de liderar a área de Relações Governamentais no Brasil para enfrentar uma crise de imagem junto ao governo, opinião pública e grandes clientes corporativos. A minha responsabilidade incluía as áreas de Relações Públicas e Relacionamento com a Imprensa.
A empresa foi citada no processo do mensalão e ganhou as manchetes nos jornais e revistas. O meu nome foi citado regularmente na mídia pois eu era “a cara” da empresa junto à opinião pública. Foi super desafiador e eu não me sentia capaz de lidar com tudo aquilo. No final eu fiz o meu trabalho e me surpreendi com a minha capacidade de superação.
Do meu lado pessoal, talvez seja clichê, mas a sensação se repetiu ao encarar a paternidade e, antes disso, ao deixar a casa dos meus pais para o primeiro casamento. Lembro da insegurança de “não estar pronto” nesses momentos.

A filosofia e o desconforto: por que nunca estamos prontos
A filosofia tem por princípio uma “busca constante”, uma sucessão de perguntas, cujas respostas nos levam para outras perguntas, em um “loop infinito”.
Quando achamos que estamos prontos para enfrentar um desafio, é porque ele não é mais propriamente um desafio. Tornou-se desinteressante.
Será que "estar pronto" nos imobiliza?
O que verdadeiramente nos move são os desafios. Portanto, a vida ganha outra dimensão quando abraçamos a ideia de que nunca estamos totalmente prontos.
Deveríamos nos sentir confortáveis com este desconforto.
Improviso e preparação: as múltiplas dimensões do "Estar Pronto"
Certa vez, em um evento sobre improviso e criatividade, com os incríveis Márcio Ballas e Murilo Gun, eu aprendi que improviso exige conhecimento e preparação.
Marcio Ballas é palhaço profissional, improvisador, apresentador e diretor especializado na linguagem de Clown e Improviso Teatral. Não por acaso, também é meu amigo.
Como mestre do assunto, Ballas foi categórico: "improvisação não é gambiarra, não é fazer de qualquer jeito e nem é fazer qualquer coisa. Também não é uma questão de ser extrovertido. É questão de ser espontâneo e genuíno, de saber lidar com a própria insegurança e os inevitáveis erros. Improvisação envolve a capacidade de combinar coisas para gerar coisas novas."
Aqui surge a criatividade.
A conclusão é a seguinte: “Quanto mais a gente estuda e se prepara, mais coisas colocamos dentro do nosso baú interior de ferramentas e, com isso, conseguimos lidar melhor com surpresas e situações não previstas”.
A profundidade do tema fica mais clara no excelente programa “É Tudo Improviso”, no vídeo onde Ballas explica a técnica ou em seu especial TEDx, “O Olhar do SIM".
Você melhor improvisa, quando está melhor preparado.
Decompondo o conceito de "Estar Pronto": soft skills e perspectivas
Após muita reflexão, consegui decompor o que, para mim, significa “estar pronto”. Longe de ser um estado único, é um conceito que se manifesta em várias dimensões.
O “estar pronto” significa eu estar munido de recursos e ferramentas, as mais diversas possíveis, para lidar com o imprevisível ou impensado... quando ele aparece.
É ter a cabeça aberta para viver sob inúmeras perspectivas, reconhecendo e rompendo com vieses e preconceitos enraizados pela minha cultura, criação e/ou crenças limitantes.
É priorizar o conhecimento filosófico e existencial, as habilidades sociais e a pluralidade de perspectivas, sempre valorizando a multiplicidade e a diversidade, indo muito além do desenvolvimento de minhas capacidades técnicas e/ou profissionais.
O “estar pronto” é lidar bem e até se divertir com as minhas próprias limitações, inseguranças e erros. Talvez rir de mim mesmo quando todos ao meu redor estão sérios.
O “estar pronto” não é somente ver a árvore, mas se elevar para ver a floresta.
O “estar pronto” é gostar mais das perguntas do que das respostas.
Enfim, o “estar pronto” não envolve “hard skills”, mas “soft skills”.
Essa “descoberta” que venho elaborando nos últimos anos, me levou a estudar filosofia, questões existenciais e ciências humanas. Para quem se formou em engenharia e análise de sistemas, como eu, isso me parecia desafiador, interessante e... transformador!
O fortalecimento da alma: por que não reprimir as emoções
Na elaboração sem fim do que é “estar pronto”, surgiu algo que nem todo mundo compreende, mas fundamental, que é o fortalecimento da alma e do espírito.
Como fazer isso? Não reprimindo as emoções.
Não reprimir as emoções aumenta o meu repertório de autoconhecimento de sentimentos e sensações.
Ao longo do processo de lidar com as minhas próprias emoções, o meu nível de autoconsciência se eleva, portanto, ganho mais consciência emocional, me capacitando a desenvolver maior resiliência emocional e acumular mais recursos internos para lidar com os desafios da vida.
Eu tenho uma experiência muito particular que comprova tudo isso. Anos atrás eu vivi um luto (já contado e recontado no meu blog) que foi muito desafiador. No início eu recebi conselhos de pessoas amigas buscando me ajudar no processo e, quase sempre, eram conselhos que envolviam ações e atitudes para me distrair do luto, de me desviar do que eu vivia.
Na maior parte das vezes, tais propostas convergiam para a repressão de sentimentos e emoções. Com o passar do tempo eu descobri que eu precisava viver o luto intensamente, deixar tudo fluir sem piedade, não evitar ou represar emoções. Ao descobrir que para superar o luto eu precisava viver o luto através das emoções, tudo ficou mais fácil.
Essa experiência do luto me transformou radicalmente. Hoje eu aceito as minhas emoções, acolho-as. Isso me desenvolve emocionalmente e afetivamente, e me fortalece. Também me ajuda a ter mais empatia e a desenvolver relacionamentos sem julgamento. E, aí, fazendo o link com o “estar pronto”, vejo isso como passo fundamental para desenvolvermos habilidades de enfrentamento aos desafios da vida.
Sapiens e a liberdade: questionando as regras do jogo
Ao ler o brilhante livro "Sapiens" de Yuval Noah Harari, no capítulo "Não existe justiça na história", eu tive um insight que conecta perfeitamente com essa jornada de "estar pronto".
Harari introduz o conceito das "hierarquias imaginadas": estruturas como religião, política, nacionalismo e cultura que nós, humanos, inventamos e nas quais acreditamos coletivamente para organizar sociedades complexas.
A grande sacada do autor é que essas regras, por mais sólidas que pareçam, não são leis naturais ou uma "essência" genuína do ser humano. Elas são construções, ficções poderosas que nos moldam, mas que não são imutáveis. O sistema de castas, as divisões de gênero, a noção de sucesso e até a pressão para sermos pais ou líderes "perfeitos" são, em grande parte, jogos com regras que alguém definiu em algum momento da história.
Quando entendi que religião, política, cultura e até os "deveres" da vida adulta são, em certa medida, "hierarquias imaginadas" que me limitam e me colocam dentro de caixinhas, a sensação foi libertadora. Passei a olhar as coisas de forma diferente.
Percebi que muito do meu questionamento anterior, a sensação de não estar à altura ou de ser um "fracassado" por não cumprir certos marcos sociais, vinha de tentar me encaixar em um molde que eu não havia questionado.
Ao abrir a mente e olhar o mundo com esse distanciamento crítico, ao me flexibilizar perante os padrões impostos, ao entender que a maior riqueza é "viver a vida" com pluralidade e empatia, ganhei um superpoder: a capacidade de reescrever as regras que me governa.
E é isso que me torna verdadeiramente "pronto". Não se trata de seguir um manual, mas de ter o discernimento para saber quais capítulos desse manual vale a pena para a minha história.
Fico "mais pronto" porque, ao questionar as grandes narrativas, desenvolvo a coragem para escrever a minha própria.

Propósito e ressignificação como bússola na jornada da insegurança
E é nesse ponto que surge o propósito. Quando paramos de tentar nos encaixar em expectativas externas e começamos a escrever nossas próprias regras, o que nos guia?
A resposta está no propósito: a bússola que dá sentido à nossa jornada. Ele nos orienta mesmo sem a exatidão do caminho e, principalmente, nos dá a coragem de avançar mesmo sem a sensação de estarmos 100% prontos.
A busca por estar pronto, portanto, se funde com a busca por viver uma vida com propósito.
Crise e resilência: como situações difíceis forjam o fortalecimento interno
Quando passo em perspectiva a minha vida, e as experiências de amigos e amigas queridas, vejo que momentos de crise profunda se transformaram em momentos de grande fortalecimento e desenvolvimento pessoal.
Esta não é uma visão romântica do sofrimento, mas uma constatação prática: o "músculo" da resiliência só se desenvolve sob carga extrema. É algo parecido com o “fazer musculação”.
Nunca estamos verdadeiramente preparados para lidar com um luto, uma demissão inesperada, uma crise de imagem ou o pânico diante de uma responsabilidade colossal. No entanto, são justamente essas situações difíceis que se transformam em oportunidades únicas de grande fortalecimento, forjando habilidades, capacidades e forças que desconhecíamos em nós.
É no olho do furacão que descobrimos um “reservatório de calma e equilíbrio” que não sabíamos ter, uma criatividade desesperada para encontrar soluções ou uma compaixão mais profunda pelos outros. Eu vivi isso pessoalmente e me surpreendi com alguns superpoderes que tenho.
As minhas experiências pessoais não me fortalecem apesar de serem dolorosas, mas exatamente porque são dolorosas. Elas quebram a casca da minha zona de conforto e me obrigam a usar todas as ferramentas que colecionei ao longo da vida: a improvisação treinada, a flexibilidade mental aprendida com a filosofia, a inteligência emocional cultivada ao não reprimir o que sinto.
Cada crise superada vira uma nova ferramenta em meu baú interior, uma espécie de "caso de sucesso" pessoal ao qual posso recorrer no futuro, me tornando mais resiliente, adaptável e, por incrível que pareça, mais confiante para enfrentar a próxima inevitável adversidade da vida.

A prontidão como um processo contínuo e intencional
Voltando ao início, ao cardeal Melville do filme e às minhas próprias inseguranças, vejo agora que a questão nunca foi "estar pronto" como um estado final a ser alcançado.
A verdadeira prontidão é um processo contínuo de preparação interna. É a coragem de aceitar desafios mesmo com medo, sabendo que a ferramenta mais importante não é um conhecimento técnico específico, mas um repertório de vida amplo e flexível.
Esse repertório se constrói exercitando improvisação para lidar com o inesperado, cultivando a inteligência emocional para navegar as turbulências, questionando as "hierarquias imaginadas" que me limitam e abraçando as crises como oportunidades paradoxais de crescimento.
Percebo, então, que a busca por "estar pronto" é, na verdade, a própria vida. É um convite para viver de forma mais consciente e intencional: questionando as caixinhas que me limitam, acolhendo as emoções que me fortalecem e abraçando os desafios como os verdadeiros mestres do improviso.
No fim das contas, a verdadeira prontidão é entender que a vida é o próprio mar aberto. E a única certeza que precisamos ter não é sobre o destino, mas de que somos capazes de aprender a navegar com o que carregamos dentro de nós.




Brilhante. Só não suportei o livro "Sapiens". Essa parte do teu texto eu pulei! Beijo
Muita ideias, muita inspiração, muitas coisas no que pensar. Gratidão.
Sempre muito sábio com as palavras e em como apresentá-las à nós leitores.
Eu assisti esse filme e adorei. Obrigado pela indicação do livro Sapiens. Vou ler. Achei o conceito das hierarquias imaginadas muito poderoso, quero ler mais sobre isso. Parabéns pela reflexão. Você me fez ver coisas que eu não tinha visto até então.
Mauro, meu amigo. Sua reflexão é poderosa. Gostei muito da frase “A busca por estar pronto, portanto, se funde com a busca por viver uma vida com propósito.”. O uso do conceito de hirarquia imaginária me faz pensar com o medo eterno da comparação, infelizmente crescemos sendo comparados. Notas da escola, cargos profissionais, padrão de beleza, irmãos, em aí vai. Vivemos com a sensação de julgamento constante que nos limita a buscar e aceitar mudança. E você sabe que mudança é a alma para a evolução. O processo de pequenas mudanças essencial para a vida saudável e consciente.
Abraço,
Carlos Rutigliani