O beija-flor e a tatuagem

Essa é uma história muito pessoal e teve início há um ano.

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Certo dia, em agosto de 2019, eu e Regina estávamos na sala de almoço, quando notamos um pássaro voando na helicônia. Não era um pássaro qualquer, era um beija-flor. Em segundos apareceu um segundo beija-flor. Ambos ficaram se alimentando daquela planta. Daquele dia em diante, passamos a ver os beija-flores todos os dias bailando entre as flores e folhas.

Helicônia é uma planta tropical, robusta, lindíssima, que produz grandes flores multicoloridas, exóticas, cheias de néctar que os beija-flores adoram. Aquela helicônia havia sido plantada por nós, ainda bem pequena, numa posição estratégica do jardim. A nossa sala de almoço tem um janelão, de frente para o jardim, de onde vemos a imensa helicônia quase que por inteira. Passaram-se poucos anos e a helicônia cresceu de forma ornamental e exuberante.

Ao longo do tratamento do câncer da Regina, os beija-flores passaram a ser nossos companheiros de refeição. Ver os pássaros bem perto de nós, bailando em nosso jardim, era uma forma de nos dar conforto, de provocar uma conversa amena, no meio do turbilhão da doença da minha amada. Muitas vezes eles pousavam nas hastes das palmas da helicônia e ficavam por dez ou quinze minutos parados. Eles aparentavam nos observar, o que nos parecia bastante incomum.

Nós vivemos os meses seguintes curtindo os beija-flores, sempre avistando-os da sala de almoço ou da cozinha, diariamente. A saúde da minha amada não ia bem, mas ver os pássaros se transformou em uma espécie de ritual.

No final de janeiro de 2020, as flores da helicônia começaram a secar e a cair, dentro do ciclo natural de renovação da planta. Ao mesmo tempo, a saúde da minha amada piorava aceleradamente. Apesar de tudo, os beija-flores ainda apareciam, em busca do pouco néctar restante. Nas últimas semanas de vida da Regina, quando ela não conseguia mais ir com frequência para sala de almoço, nós sentimos falta da visão dos amigos alados.

A partida da Regina foi no dia 28 de fevereiro de 2020. O meu coração ficou cinza e a helicônia perdeu a sua última flor. A partir desse dia, nenhum beija-flor veio mais na helicônia.

Passaram-se as semanas, até que chegou o dia 27 de março de 2020. Nesse dia, eu estava em casa, com meus pais e um dos meus filhos, no confinamento social estabelecido pela pandemia. Estávamos espalhados entre a sala de almoço e a cozinha, quando o meu filho gritou apontando para um beija-flor que voava dentro de casa, rodando na cozinha e na sala de almoço, sobre nossas cabeças. Fui tomado por uma euforia ao ver o beija-flor balançando as asas na minha frente. Isso durou dez segundos, porque abri as janelas da cozinha e ele foi embora voando para o jardim.

Fiquei muito emocionado, mas muito mesmo. Com o coração feito pedra, convivendo com uma saudade enorme da Regina, o ressurgimento daquele pássaro me gerou um frescor e um fio de esperança na minha alma dilacerada. Era um sinal de vida.

Nós não podemos mudar a realidade, mas eu acredito que podemos trabalhar a forma como reagimos e vivemos diante da realidade. A maneira como pensamos, determina a maneira como sentimos e vivemos a vida.

O aparecimento do beija-flor poderia ser um fato qualquer, mas não foi isso que senti dentro de mim. Ali havia algo a mais. Minha intuição me disse que o beija-flor apareceu dentro de casa para me dizer que a minha amada está perto de nós, nos olhando e nos cuidando. Segundo um dos meus filhos, o beija flor tem a energia da mãe. E, se o beija-flor veio até nós, é porque a Regina está entre nós.

O ressurgimento do beija-flor, ainda mais dentro de casa, me deu paz. De alguma forma, a Regina encontrou um jeito de me dizer que está bem. Passei o resto daquele dia, e do dia seguinte, pensando por que o beija flor voltou no dia 27 de março de 2020, às 9 horas e pouco da manhã, exatamente 1 dia antes de completar 1 mês da partida da minha amada. Por que o beija-flor voltou naquele dia e horário? Alguma explicação havia de existir. E algo me veio à mente, que faz todo sentido.

No dia 27 de fevereiro de 2020, dia anterior à partida da Regina, aconteceu algo muito marcante, mágico e íntimo. Nesse dia, a minha amada já estava muito sedada, sob efeito de remédios fortes intravenosos, que praticamente a colocava em sono profundo continuamente, com raríssimos momentos de consciência. Sabíamos que estávamos na reta final e por isso vivíamos instantes de enorme angústia e sofrimento.

Por volta das 9 horas e pouco da manhã, de forma surpreendente e inesperada, a Regina despertou em plena paz, com semblante tranquilo, com aparente saúde e falou conosco. Os meus dois filhos, eu, o técnico de enfermagem e a empregada, estávamos ao lado dela naquele momento, na sala que estava funcionando como quarto.

A Regina passou a mão nos rostos dos meus filhos, como ela gostava de fazer, fez carinhos, conversou com voz serena, dizendo que estava se sentindo bem, que não sentia dor, que estava tranquila, em plena paz, e pediu para que todos não se preocupassem com ela. Ela se virou para mim, pôs a mão no meu rosto, me acariciou e pediu para eu ficar tranquilo. Falou com todos que estavam na sala, sorriu, conversou e distribuiu carinhos.

Naquele instante, eu sentia a clara sensação de que estávamos vivendo ali um momento sublime, algo extraordinário estava acontecendo. Eu sentia uma enorme paz, um bem estar profundo e um sentimento genuíno de que a Regina estava realmente bem, consciente do desfecho e nos acalmando. A minha sensação é que a sala estava iluminada, existia uma luz divina sobre nós naquele momento, havia muita energia no ar e aquele instante era o ápice de tudo que havíamos vivido. A minha sensação é que eu não estava mais diante da Regina que eu conhecia, mas sim diante de uma santa, uma divindade, alguém que já não estava mais na Terra. Eu nunca havia sentido isso antes. Foi algo cercado de magia e luz. Esse momento, profundo e aparentemente infinito, durou apenas sete minutos, aproximadamente.

A Regina agradeceu todo mundo, pelo cuidado, amor e carinho que todos davam a ela. A minha amada falava com uma voz pausada e serena, sorrindo, dando luz e conforto para todos. Aquilo foi de fato uma despedida. Ali ela estava nos deixando e dizendo que estava indo em paz, de bem com a vida, com amor no coração e carinho por todos. Durante aqueles minutos a minha alma sossegou.

Aquele foi o último momento de consciência da Regina. Até o dia seguinte, dia 28 de fevereiro, quando ela faleceu, ela não demonstrou mais reação, a não ser uma respiração inconsciente, mecânica e lenta. Era o corpo lutando pela vida. Mas, de alguma forma, eu não sentia mais a Regina presente. Isso é algo difícil de descrever. Aquelas 24 horas foram as horas mais intensas de minha vida, que dificilmente serão superadas.

A volta do beija flor no dia 27 de março de 2020, por volta das 9 horas e pouco, foi exatamente 1 mês depois desse momento mágico que descrevi acima. Parece que a minha amada, na forma de beija flor, veio até nós para nos dizer que está liberta e feliz, que está nos olhando e cuidando da gente. Foi assim que interpretei.

É impossível dimensionar o tamanho da minha felicidade e paz de espírito com esse voo do beija-flor sobre nossas cabeças. Foi algo que evidenciou para mim que a vida com a minha amada não acabou, ela continua, para sempre. Estou convencido que ainda conseguirei me relacionar com a Regina daqui para frente, de alguma forma.

Ao longo dos dias 27 e 28 de março de 2020, por diversas vezes, eu senti forte rajadas de brisa me refrescando, no corpo e na alma, me dando sinais de que a Regina estava ao meu redor e se comunicando comigo. Foram dois dias de muito vento no jardim. A partir do voo do beija-flor dentro de casa, os pássaros voltaram a visitar a helicônia.

Todos os dias vem um casal de beija-flores, que passam muitas horas voando ou pousados na planta. Eles ficam pousados e olhando para nossa casa, horas e horas. Já encontrei os beija-flores pousados com a barriga no chão da varanda, encostados no vidro da porta, olhando para dentro da sala.

Dentro de poucos meses a helicônia dará novas flores magníficas e exuberantes. Enquanto isso não acontece, eu comprei dois alimentadores de beija-flores e coloquei no meio da helicônia, que é visitada não somente pelos beija-flores, mas por também outros pássaros.

Dia 28 de agosto completa 6 meses que a minha amada partiu e eu decidi fazer algo especial e perene para marcar esse momento, afinal penso nela todos os dias. Fiz uma tatuagem do beija-flor e da helicônia no meu corpo. Essa tatuagem não representa somente a mágica história que contei aqui, mas também toda uma vida dedicada a pessoa que mais amo no mundo. Ao olhar a tatuagem, eu sempre me lembrarei de uma vida inteira. A tatuagem será para sempre. Fiz também uma camiseta com sua imagem, tirada de uma fotografia feita em nossa lua de mel. Fui eu que fotografei e lembro muito bem do momento dessa foto.

O processo de luto tem sido uma singular experiência. A cada dia busco encontrar sentido nas coisas que me cercam, encontrando conforto, razão e motivação para viver. A história do beija-flor é um exemplo. Existem várias outras histórias que vêm me ajudando na busca de uma existência digna, com paz de espírito e resignação. Como já disse antes, o importante não é a realidade em si, mas a forma como vemos, interpretamos e agimos sobre essa realidade. Não é uma questão de ilusão, mas é uma questão de darmos chance para uma vida mais prazerosa e feliz, com significado. Enfim, a forma como pensamos, determina a maneira como sentimos e vivemos a vida.

Obs.: Escrever esse texto foi uma experiência muito dolorosa para mim. Tive que voltar no tempo, reviver momentos e sensações que me despertaram imensa saudade da pessoa que mais amo no mundo. Mas viver essas experiências faz parte do processo do luto, que não dá para desviar ou fugir. Tenho que viver por inteiro… e eu estou vivendo.