As plantas que nascem por entre as pedras do meu luto

Eu cheguei de viagem e fui direto para a varanda perto do jardim. Estava muito cansado. Sentei e olhei para aquele chão de pedra. Inesperadamente, notei que havia uma plantinha nascendo, no meio daquelas pedras. Era uma guerreira da vida. Fui lá para ver de perto, e fiz a foto que ilustra esse artigo.

Foi impossível não associar essa visão ao que estou passando. O chão de pedra me fez lembrar do meu estado de espírito após a partida da minha amada Regina. A vida deixou de ser colorida, virou pedra, parecia que nada mais faria sentido e que a continuidade da vida seria impossível. Mas o tempo foi passando e comecei a ver coisas lindas de novo, me permiti sair da minha caverna, descobrindo que o sol aquece a alma e faz germinar a esperança, tal qual aquela plantinha na minha varanda de pedra.

Conviverei para sempre com as pedras que estão dentro de mim, elas são sagradas e honram a memória da pessoa que mais amo nesse mundo, porém permitindo que plantas germinem por entre essas mesmas pedras, transformando a minha nova vida em um jardim diferente, lindo, repleto de coisas boas e novas possibilidades.

Estou vivendo a melhor fase desde que minha amada partiu. Talvez o segredo de tudo esteja no click que deu dentro de mim. Esse click foi a descoberta de que eu não preciso de viver uma grande transformação nessa minha nova fase de vida, muito menos de um propósito de vida que seja claro, cristalino e significativo. Passei os últimos 5 meses com essas coisas na cabeça, escrevi textos sobre estar buscando um propósito de vida, mas vivo um momento diferente.

A minha viagem de 60 anos foi um divisor de águas para os meus lutos: o luto da perda da minha amada Regina, o luto de sair do emprego e não ter mais trabalho, e outros lutos que vieram a reboque desses dois acontecimentos.

Viajar sozinho foi uma decisão acertada. Foi uma forma de deixar claro que agora sou eu comigo mesmo, que eu tenho que cuidar de mim e me conhecer. Curti muito a viagem sozinho, apesar de achar estranha. Foi algo diferente não ter para quem sorrir, para conversar ou para decidir se vai para esquerda ou direita. O café da manhã solitário também foi estranho. Fazer a emblemática virada dos 60 de forma bem simples, de forma solitária, reforçou mais ainda o meu momento de vida. No final de tudo, a viagem estabeleceu um marco de mudança no meu caminho. E desde então, eu estou fazendo de tudo para que seja realmente um marco.

Instituí para mim mesmo que vivo um período sabático, sem prazo, sem data limite. Se eu for competente, pode ser um sabático para sempre, que terá por base um tripé que envolve equilíbrio de condição financeira, autoconhecimento e satisfação pessoal. Para viver isso, eu tenho pensado muito em minha transformação como ser humano. Isso parece algo vago de estabelecer. O que é se transformar? É difícil de entender, mas como executivo de empresa que fui, sempre tento ter uma visão prática e pragmática disso.

Eu passei os últimos meses com a minha cabeça pegando fogo, em uma gangorra de sentimentos, convivendo com a ansiedade inevitável, a falta da motivação do despertar das manhãs e as noites cotidianamente melancólicas. A casa em silêncio é algo ainda incomum. Tudo isso funcionando como enormes obstáculos para uma vida que valha a pena. Dentro de mim, lá no fundo, eu coloquei na cabeça que precisava passar por uma grande mudança para me transformar em um outro ser humano, afinal para ver a vida de forma diferente, é preciso ser um novo ser humano daquele que eu era. A viagem jogou isso para o alto.

Descobri que a satisfação na vida está nas pequenas coisas, está na expectativa que carregamos dentro da gente e se permitir viver com a cabeça aberta todos os dias. Como executivo, meus objetivos eram sempre magnânimos, com metas impossíveis e limites estressantes para serem batidos. Foi assim que a minha cabeça foi forjada. Isso não vale mais, a não ser que eu queira ser um cara frustrado para o resto da vida. Comecei, então, a reavaliar algumas coisas que estavam em minha cabeça. Acho que isso é claramente uma nova fase do meu luto.

A única decisão, por enquanto inegociável, é não voltar a trabalhar no mundo corporativo. Mas até essa decisão pode mudar. Quem sabe, um dia, a vontade de ficar estressado em uma mesa de escritório retorna? Nada é definitivo. Mas hoje isso está completamente fora do meu mapa de vida.

Eu pensei em estudar história, turismo, neurociência… são áreas que gosto muito. Entrar nessas áreas ajudaria na minha mudança de curso. Mas aí já me imaginei em salas de aula, mesmo virtuais, tendo que estudar, treinar, fazer provas, etc. Entrar nessas áreas exigiria tempo e desenvolvimento, seria um projeto de vida, até bacana, seria um plano, poderia ser legal para meu futuro, mas pensei melhor. Com uma visão prática de vida, eu preciso pensar em coisas mais fáceis, coisas que me tragam resultados e satisfações em pouco tempo, com clara sensação de que as coisas estão evoluindo, me provendo evidências simples que a minha vida está mudando, com realização e bem estar. Comecei a repensar essas ideias e abandonei-as no canto do cérebro.

Eu passei muitos meses sem olhar e cuidar do jardim de casa. Na verdade, abandonar o jardim foi uma forma de mostrar a minha raiva e meu menosprezo pela vida, de me distanciar do mundo real, uma forma de reclamar da vida para Deus, de mostrar a ele que eu não aceitava o que eu estava vivendo. O jardim abandonado, de alguma forma, representava o sentimento também de abandono que eu sentia dentro de mim.

Mas não foi só o jardim. Eu também convivi, nesse tempo, com sentimentos conflitantes em relação a minha casa. Eu moro em uma casa bacana e confortável. Eu passei os últimos meses pensando em sair dela, porque a casa me faz lembrar da Regina o tempo todo. Estar na casa é estar em um lugar que será para sempre incompleto.

Surpreendentemente, com o passar do tempo, eu estou me acostumando com a casa vazia. Ao mesmo tempo que a casa me provoca muitas lembranças do meu Amor, a casa também me gera bem estar, porque foi nessa casa que passei os últimos 25 anos da minha vida, com muitas conquistas, felicidade e o desenvolvimento de uma família linda. A casa hoje está me trazendo mais paz do que angústia. Quero continuar nela enquanto o meu coração pedir por isso.

A mudança de sentimento em relação à casa veio semanas atrás. E, com essa mudança, veio também uma enorme vontade de voltar a cuidar do jardim. Eu pratico jardinagem há muito tempo, portanto foi um redespertar de algo que me dá profundo prazer. A Regina adorava me ver passando horas no jardim, pois era um dos raros momentos em que eu realmente me desconectava do mundo. Atualmente dedico muitas horas da semana cuidando do jardim. E me convenci a transformá-lo no jardim mais bonito do mundo. São momentos de paz, descanso da mente, satisfação por estar cercado de pássaros e muito sol na cara.

Decidi investir tempo para entender o funcionamento da minha cabeça desde a partida da Regina: o que ocorreu dentro da minha mente, os meus sentimentos, como estou agora e para onde está indo o meu estado de espírito. Como lidar com a gangorra de sentimentos? Para isso eu estou lendo e consumindo conteúdo sobre como as pessoas lidam com momentos de perda, especialmente de perda de pessoas amadas. Estou ouvindo podcasts, lendo livros, sobre lutos, sentimentos, espiritualidade, etc. Essa experiência está sendo tão vasta e mágica, que eu acho que vou escrever um texto sobre isso.

Sempre fui muito aberto para consumir conteúdo, mas agora estou mais aberto do que nunca. Consumo de tudo na área da espiritualidade: espiritismo, budismo, judaísmo, etc. Estou aprendendo, assimilando de tudo para eu mesmo escolher o meu caminho, combinando coisas e criando minhas próprias crenças e jornadas. Olhar para dentro está me trazendo um grande autoconhecimento. Estou descobrindo um Mauro que eu mesmo não conheço, e até me assusta um pouco. Tem um cara dentro de mim que estou conhecendo somente agora. As vezes me surpreendo.

Eu estou mais indisciplinado. Estou fazendo as coisas conforme a minha vontade e o meu desejo. Eu não faço as coisas porque têm que fazer, eu faço porque tenho vontade. Quando eu quiser. Eu nunca agi assim. Eu sempre fiz as coisas para os outros, pelos outros. Estou exercitando isso e deixando acontecer, o que se traduz em pequenas coisas, como a casa bagunçada, as refeições (quando tem) em horários completamente sem sentido, etc. Isso, de alguma forma, também faz parte da jornada de autoconhecimento. Estou começando a descobrir o que me incomoda e o que me faz bem. Eu não tenho ninguém para me cobrar, eu não tenho que prestar conta para ninguém. Sou eu comigo mesmo.

Antigamente, eu tinha muita preocupação com coisas desimportantes, como ter tudo 100% arrumado, tudo 100% seguro, ter o meu blog lindo, etc. Hoje as coisas estão diferentes. O meu blog tá dando erro? Tudo bem, um dia eu conserto. A casa tá uma zona? Zero de importância, algum dia eu arrumo e limpo as coisas. Quero fazer o que está a meu alcance e que me faz bem.

Estou me desfazendo aceleradamente das coisas. Coloquei na minha cabeça de que todo dia preciso me desfazer de algo, de me libertar de alguma coisa, de tirar pesos da minha vida, doando coisas, esvaziando a casa, ou até mesmo fazendo um favor inesperado para alguém, ou seja, doando meu tempo para alguém. Estou convivendo com a preocupação de preencher a minha agenda diária com atividades cedendo ou doando coisas. Isso está me fazendo bem porque dá uma sensação de que estou avançando.

A decisão de fazer caminhadas, trekking e peregrinações, continua mais forte do que nunca. Estou dedicado a isso. Isso me fortalece a saúde, me dá paz e está exigindo aprendizado e uma preparação física muito boa. Caminho diariamente mais de 10 km. E, nas últimas duas semanas, faço essas caminhadas com uma mochila nas costas pesando 8 quilos. Cada dia me sinto melhor, me sinto mais forte e resistente, e com isso a minha vontade de continuar só aumenta. Já emagreci bastante e me sinto mais leve de corpo e espírito. Em muito breve farei minha primeira caminhada de peregrinação.

Tenho recebido sondagens de emprego, sempre nas minhas áreas de especialização (comunicação e marketing) e na linha tradicional de trabalho. Eu tenho delicadamente declinado todas. As vezes tenho uma vontade enorme de evoluir na conversa, mas não tenho feito e nem dado chance para isso. A única exceção que faço, as vezes, é ajudar amigos muito próximos em alguma recolocação de emprego, aconselhamento profissional ou alguma decisão de trabalho. Estou ainda em meu momento de reclusão e quero continuar assim.

Estou aprendendo a experimentar a vida em solidão. Estou em paz. Acordo feliz e sorrindo todos os dias, sempre ouvindo música. No dia 28 de agosto de 2020 fará apenas 6 meses que a minha amada partiu, por isso a conquista dessa paz com o amanhecer não tem sido fácil. Desenvolvi alguns pequenos e simples mecanismos para não dar chance para a tristeza e a melancolia me pegarem.

Tenho aprendido muito e, principalmente, desenvolvido por conta própria algumas estratégias para transformar esse período de luto em uma fase saudável para minha vida, plantando a base de aprendizado para uma vida prazeirosa em solidão. E estou conseguindo. Começando por me convencer que tenho que viver para mim. Esse é um processo lento, totalmente desconhecido para mim, é um processo de descobertas, onde me vejo como um ser humano com boas qualidades, mas também com muitas inseguranças que preciso trabalhar.

Minha agenda não é mais de longo prazo, muito menos de planos futuros, decisões seguras e certezas de direção. Obviamente, pelo meu perfil pessoal, eu sempre me preocupei com essas coisas, mas estou em um momento de entender e curtir o presente. Portanto, o futuro pode esperar numa boa. O lance é o dia seguinte, a semana seguinte ou, quem sabe, o próximo mês.

A saudade da minha amada continua, mas tem algo acontecendo. Passei meses escrevendo cartas para a Regina. As vezes escrevia mais de uma carta por dia. Já são mais de 500 páginas de cartas escritas, muitas delas de intensa emoção e profundidade, em 3 cadernos. De uma atividade diária, de intensa dedicação e desabafo, passei para uma atividade irregular. Agora eu não escrevo mais diariamente. Confesso que, muitas vezes, eu tomo a iniciativa de não escrever, com o objetivo de quebrar a rotina, de forma intencional. No começo, isso me causava uma imensa dor interna, como se eu estivesse gerando dentro mim um incentivo para esquecer a Regina, mas eu sabia que essa quebra de comportamento seria necessária para mudar o curso das coisas. Só escrevo quando o coração manda, sem sentimento de obrigação ou arrependimento, de minha parte.

O único compromisso recorrente que tenho na minha agenda é com o querido amigo Marcelo Medeiros, que vive em Santa Catarina. Nós falamos por “google meet”. A reunião é tão importante, que se chama “weekly bullshit reunion”. Marcelo é um cara fantástico. Foi presidente e VP de empresas até recentemente. E, agora, lançou o Leading Zone, onde ele e e uma equipe pesada de lideranças estão provendo mentorias, consultoria de gestão e workshops de liderança, através de serviços online para profissionais e empresas. E, o melhor, não são somente serviços pagos, mas muitos serviços voluntários, de graça mesmo. Qualquer um pode se inscrever, até profissionais, iniciantes ou profissionais. Enfim, algo maravilhoso de alguém que dedicou mais de 30 anos liderando empresas. Agora ele está devolvendo o que aprendeu e sua experiência para as pessoas. Por isso a “weekly bullshit reunion” é deliciosa. Quem sabe um dia me junto ao Leading Zone?

Enfim, nas últimas semanas, eu descobri que em vez de uma grande mudança, de algo marcante, o segredo está em realizar muitas pequenas mudanças, sem pressa, na velocidade possível, com sensação de pequenas realizações. É esse conjunto de pequenas realizações que me levará para outra direção. E se algo não me agradar, então não será um problema, bastar corrigir o curso, afinal são pequenas mudanças. Nada como viver um dia de cada vez, dando chance para as plantinhas nascerem por entre as pedras.

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