O dilema do idoso: quando a alma não sabe a própria idade
- há 1 dia
- 12 min de leitura
A "Twilight Zone" da idade: 4 cenas reais que aconteceram comigo
Cena 1 (em 2023) - A vaga que me definiu
No estacionamento do shopping. Um senhor se vira para mim e inicia o diálogo:
“O senhor não pode estacionar aí?”
Eu respondo: “Por que?”
“É vaga de idoso.”
“Mas eu sou idoso”
“O senhor tem mais de 60 anos?”
“Tenho 63”
Cena 2 (em 2025) - O marido da minha mãe
Em uma loja dentro do shopping, com minha mãe, que tem 93 anos.
O rapaz fala para minha mãe: “Agora que a senhora já comprou o seu presente, a senhora não vai comprar nada para o seu marido?”
E se vira, olhando para mim.
Cena 3 (em 2020) - O salto que não deveria ter dado
Eu estava fazendo uma trilha com amigos, no ponto mais alto da ilha de Floripa, em um local que exigia atenção, repleto de grandes pedras. Em determinado momento, tento pular de uma pedra para outra como se tivesse a agilidade de um adolescente. Então sofro um acidente que poderia ter sido bem mais grave do que foi. O meu corpo não acompanhou a mente.
Cena 4 (em 2024) - O sofá que nunca será minha escolha
Conversando com minha mãe sobre a minha agenda cheia de atividades, ela se vira para mim e fala: “Você não acha que está na hora de parar e descansar? Está achando que ainda é jovem?"
Viro para ela, e num tom sarcástico exclamo:
“É pra ficar sentado no sofá olhando para as paredes?”
A minha cabeça tem dificuldade de conectar essas cenas, todas reais. Elas são contraditórias, embaralham conceitos e percepções.

Do carimbo social ao desconforto íntimo
Ao ultrapassar os 60 anos de idade, eu ganhei o carimbo de “idoso”. Ok! Estou bem com isso! Não vejo problemas e aceito!
Mas tem uma questão por trás disso: eu não me sinto idoso! Ainda me sinto forte, saudável e suficientemente entusiasmado com a vida, o que faz me afastar do estigma de “idoso” e, especialmente, ficar longe do sofá.
Em julho do ano passado completei 65 anos de idade, porém os meus lobos internos continuam discutindo qual é a minha idade verdadeira.
A revolução dos 60: quando o marco cronológico vira ponto de virada
Obviamente que não falo pelos outros, mas falo por mim: a sensação de ultrapassar os 60 anos de idade é como se eu tivesse entrado em uma “twilight zone”. Externamente eu passei a ser “prioridade por lei” nas filas da vida, ganhei o direito de algumas vagas especiais no estacionamento do supermercado e mudei de categoria nos níveis recomendados de exame de sangue. Essas são coisas reais, que carregam um rastro de vieses, comportamentos invisíveis, até questões existenciais.
O meu caso é um pouco mais peculiar do que a maioria dos idosos como eu, porque no ano em que fiz 60 anos de idade, o universo deflagrou um novo plano de vida para a minha existência - a minha vida sofreu uma revolução total e tudo ganhou uma nova dimensão. Essa história está detalhadamente descrita no meu blog nos artigos publicados a partir de abril de 2020.
Enfim, os meus 60 anos de idade, além do inevitável marco cronológico, representam verdadeiramente o início de um novo capítulo do meu livro da vida. Isso muda completamente o contexto.
Os desafios que (ainda) não são meus: a singularidade de ser “idoso novo”
Leio artigos e matérias sobre os desafios do idoso, que naturalmente surgem com o envelhecimento. Eis alguns exemplos: surgimento de doenças crônicas, preconceito, dependência, acessibilidade, solidão e isolamento... e indo mais fundo, leio até sobre perda do sentido da vida e medo da morte.
Eu não sinto nada disso. Talvez porque eu seja um “idoso novo”. Falando de outra forma: ainda não me sinto velho o suficiente para sentir essas coisas. Mas vou chegar lá... prometo não me esforçar para isso, mas chegarei.
O fato de ter abraçado a filosofia com toda força, me instrumentalizou com mais autoconhecimento, me deu pensamento crítico e maior compreensão da natureza humana, me deixando mais adaptável e flexível, cuidando e rejuvenescendo o meu Eu Interior. Parte da “minha juventude” vem disso aí.
Redes sociais e iniciativas: o engajamento que não encontra eco
Olho o LinkedIn e tudo ali me estimula, jogando na minha frente uma onda de novas possibilidades. Porém sei que é uma ilusão: nem tudo que está ali é real de verdade. No Instagram é pior, porque a realidade é mais falsa ainda. O que chama atenção é a pauta sobre idade.
No mesmo Linkedin, vejo projetos como o Age Free World, o Coletivo 45+ e outras iniciativas relevantes que têm foco na maturidade, senioridade e no combate ao etarismo. Reconheço a importância fundamental desses movimentos para a sociedade porque eles constroem pontes, quebram estereótipos e abrem caminhos para que todos possamos viver a maturidade com mais dignidade e liberdade.
Embora eu não me sinta pessoalmente impactado pelo estigma da idade no meu dia a dia, sei que essa não é a realidade de milhões de pessoas. Minha jornada pessoal - esse estranho dilema entre o corpo que envelhece e a alma que não - só faz sentido quando compartilhada em um lugar que acolhe todas as formas de viver a maturidade. Por isso este artigo também foi publicado no Age Free World.
Se minha reflexão puder somar, ainda que de forma indireta, já valeu a pena.
Explicar essa aparente contradição é difícil. Talvez porque minha experiência pessoal seja justamente o privilégio de quem não sofreu na pele o estigma que tantos enfrentam. E é por reconhecer esse privilégio que faz sentido lembrar que o envelhecimento pode ser vivido de muitas formas, e que todas elas merecem respeito e visibilidade.

Os lobos da maturidade: a guerra interna de quem não se sente idoso
Por outro lado, confesso, que me vejo no espelho e, às vezes, não me reconheço. Já escrevi vários artigos sobre isso no meu blog.
Certamente que o aspecto físico tem um peso importante nessa percepção, por mais que eu tente negligenciá-lo. Como posso estar envelhecendo por fora se não sinto isso por dentro?
O lobo do espelho: o confronto com a idade cronológica
Um lobo, dentro de mim, sussurra na intimidade: “Quem é esse velhote aí no espelho?”
Esta é a voz da realidade mais crua. É o lobo que lê os exames de sangue, que conta os anos no calendário, que vê os fios brancos (ou a ausência deles) e que escuta os comentários alheios. Ele é o fiscal da idade cronológica, aquele que não permite que eu me iluda completamente com o que o espelho reflete. Seu sussurro não é de derrota, mas de constatação.
O lobo da essência: a voz da alma que não envelhece
Daí vem outro lobo, se aconchega no meu outro ouvido e diz baixinho; “Você está ficando velho, porém nada mudou. Vai em frente e viva a vida com toda energia sem se preocupar com isso”.
Este é o lobo da minha identidade profunda, da centelha de curiosidade, da vontade de viver, do entusiasmo com um novo projeto ou em fazer uma nova trilha. Ele me olha por dentro e não encontra rugas, apenas potencial.
O lobo da imperatividade: "o melhor ainda está por vir"
Então, chega um terceiro lobo e fala alto, quase dando uma ordem: “Agora o relógio corre ao contrário. Aproveite a vida. Faça o que deseja e o que pensa que é certo. A vida está em suas mãos! Seu bem-estar e satisfação pessoal dependem exclusivamente de você. O melhor ainda está por vir”.
Este não é um lobo de contemplação, mas de ação. Ele traduz a sabedoria da maturidade em imperativo vital. Ele não pergunta “quem sou eu”, mas “o que vou fazer com o tempo que me resta”. É a voz que transforma a consciência da finitude em combustível para uma existência mais autêntica e intensa.
Nessa questão de auto-observação e autoconhecimento, especialmente na fase em que estou, os lobos vivem alvoroçados dentro de mim. Já falei sobre “os lobos dentro de mim” e o “grande dilema” aqui no blog.
O transplante capilar: uma busca por sintonia
Recentemente, no final de novembro de 2025, eu fiz um transplante capilar que, de alguma forma faz parte desta salada do “se sentir velho”.
Mais do que uma experiência física, esse processo foi uma “experiência emocional”, muito bem explorada em um artigo recentemente publicado no meu blog. Desde o transplante, a minha relação com o espelho vem mudando. Agora me curto no espelho acompanhando a progressão capilar. Afinal, tem um nova perspectiva no ar.
Como já escrevi em outro artigo anterior, parodiando as palavras da antropóloga Mirian Goldenberg: “as minhas idades biológica e cronológica avançam, porém, a idade da minha alma não muda, ela ainda parece ser a mesma de quando nasci”. A obviedade é evidente: a minha alma é imortal.
Consciente disso, eu trato de cuidar da minha alma. Ela é o que verdadeiramente importa.

Em busca da alma imortal: da física quântica ao autoconhecimento profundo
Passei os últimos anos tentando entender o que é a “minha verdadeira alma”.
Li livros extraordinários como “Mãos de Luz”, de Barbara Anna Brennan, e “O Campo”, de Lynne McTaggart.
“Mãos de Luz” fala sobre o campo de energia humano e de como ele interage na vida cotidiana com o campo energético de outras pessoas.
“O Campo” fala que somos, essencialmente, uma carga de energia. Os seres humanos e todas as coisas vivas são uma coalescência em um campo de energia conectado a todas as outras coisas existentes no mundo. Ou seja, somos todos uma coisa só! Somos todos energia!
Ambos os livros se inserem no campo da física quântica, o que joga por terra muitos dos conceitos que hoje permeiam nossas crenças e percepções de mundo.
Os livros deram um nó na minha cabeça e mudaram radicalmente antigas crenças. Os conceitos de idade e tempo foram embaralhados na minha mente. Me expandi depois da leitura e releitura destes livros, que recomendo para amigos e amigas, mas já antecipo: leiam com a cabeça aberta porque é de pirar.
Ney Matogrosso e o "Complexo do Eu": a descoberta dos múltiplos Eus
Tentando trazer a aeronave para mais perto da realidade mundana e do dia seguinte, ainda na busca da “minha alma”, vejo que ela está conectada ao SELF do Complexo do Eu, de Caroline McHugh, que falei no artigo “O desafio de se descobrir e ser você mesmo”.
Considero esse artigo como um dos mais relevantes do meu blog, pois conhecer o “Complexo do Eu” me ajudou muito a entender que existem vários Eus dentro da gente e isso explica muita coisa. Em várias situações me pego pensando: “Qual é o Meu Eu que está falando agora?”
A “minha alma” também se conecta com o artigo “Algo que me preserva, que expande e me protege” onde Ney Matogrosso fala que tem 81 anos, mas dentro dele, ele não está com essa idade. Ele diz: “Tem uma coisa dentro que permanece, é engraçado isso”.
Da mesma forma que Ney, eu também sinto que tem alguma coisa dentro de mim que permanece. Difícil de explicar esse “sentir”.
Tudo isso, junto e misturado, de forma complexa e simples, se projeta na “minha alma”.
O engenheiro e o mistério: a tensão entre o crer e o ver
No entanto, como engenheiro que sou, algo dentro de mim pede evidências, explicações científicas, pragmatismo... na linha do “preciso ver para crer”.
Um lobo, dentro de mim, muito objetivo e seco, afirma: “sinto muito, isso não vai rolar. Com certeza você nunca vai conseguir ver sua alma, mas talvez você possa senti-la”.
Minha experiência com o Santo Daime: a alma entre o êxtase e o medo
Lembro da minha primeira consagração do Santo Daime, onde vivi uma experiência espiritual que mudou completamente a minha percepção do universo. Ela foi profunda, extraordinária e transformadora. Neste dia eu senti a minha alma, tenho certeza disso. Já a segunda consagração removeu o tom divino da primeira e me deu medo... terror, pavor, muito medo.
Nas minhas pesquisas sobre “cuidar da alma”, encontrei muitos conteúdos legais. Quase todos conectam o “cuidar da alma” com o “cultivar do bem-estar emocional e espiritual”, a “busca da paz interior”, o “praticar o autoconhecimento”, “ser grato por tudo que a vida oferece” e a “conexão com algo maior”, que dê propósito e sentido de vida.
Apesar de quase tudo isso parecer amplo e vago demais, eles não significam um ponto de chegada e sim representam uma espécie de “filosofia de vida”, e que podem ser praticados através de meditação, conexão com a natureza, atividades criativas, cuidados com a mente e o corpo, exercícios físicos, dormir bem, práticas de relaxamento, momentos de isolamento, e várias outras atividades focadas no Eu.

Elevar a frequência: a chave para cuidar da alma na maturidade
Nos últimos anos tenho buscado tudo isso, mas tem algo além disso tudo. Descobri que não é somente “cuidar da alma”.
Você pode não concordar com o que vou dizer, mas “cuidar da alma” me passa a percepção de algo passivo, de preservação do que já tenho, do que já existe, sem implicar necessariamente em evolução e desenvolvimento.
Nos meus estudos, inclusive nos livros já citados acima, descobri que somos seres que vibram. Nós temos nossa frequência interna. Nós vibramos.
Tudo que está ao nosso redor também vibra, seja a xícara de café na minha mão, a Valéria que está perto de mim ou a mosca que passou voando na minha frente. Como nada é sólido, afinal somos estruturas de energia em movimento, nós sofremos interferência de tudo ao nosso redor.
Quantas vezes eu já entrei em um local e senti uma vibração diferente. Um desconforto difícil de explicar. Lembro, nestes momentos, do seguinte pensamento: “Não me sinto bem neste local. Tem algo estranho que não sei explicar”.
Isso me fez aprender a importância da elevação de nossa frequência. Foi aqui que a coluna do Murilo Gun de 17/01/25 chegou como uma resposta.
A "agenda energética": como não deixar situações baixarem a minha frequência
Murilo fala algo que me ressoou profundamente: “Quando você ‘baixa’ sua frequência por causa de uma situação, significa que você entrou na ‘agenda energética’ daquela situação.”
De repente, ressignifiquei as quatro cenas relatadas no início deste artigo. Elas não foram apenas situações inusitadas sobre idade, foram testes à minha frequência interna.
O comentário no estacionamento, a suposição na loja, a preocupação da minha mãe - tudo isso poderia ser visto como “agendas energéticas” externas tentando me puxar para uma vibração de “declínio”, de “limite”, de “sofá”. A sabedoria, como Murilo aponta, está em saber o que realmente merece minha atenção e não permitir que essas agendas definam meu estado interno.
Práticas para elevar a frequência: do silêncio à conexão autêntica
Ele pergunta: “Como elevar a sua frequência?”.
E responde: “Meditação, gratidão, oração, práticas corporais, músicas, livros, filmes que te elevam, conversas com pessoas que te elevam... entre infinitas outras coisas.”
Isso é a tradução ativa de “cuidar da alma”. É o que aconteceu comigo quando li “O Campo” e me expandi, quando tenho uma conversa que toca o coração, quando escolho uma trilha na natureza em vez de ficar uma hora ouvindo notícias na TV (que é outro grande “baixador de frequência”, como Murilo bem alerta, afinal geram medo, insegurança e baixo astral).
Percebi então que meus lobos estão, na verdade, tendo um longo debate sobre frequência.
O lobo que vê o “velhote no espelho” está reagindo a uma interferência externa, à vibração do mundo material e do tempo linear.
O lobo que diz “nada mudou, vai em frente” é o guardião da minha frequência essencial, daquela “coisa que permanece”, falado pelo Ney Matogrosso.
E o lobo que ordena “o melhor ainda está por vir” é a voz que entende que elevar e manter essa frequência é o próprio caminho para esse “melhor”.
Creio que o "elevar a frequência" é muito pessoal. Eu tenho o meu jeito. Murilo Gun tem o dele. Não penso que exista uma fórmula específica, mas acredito que obrigatoriamente o caminho esteja em alimentar o Eu Interior.

Como sintonizar minha vida na frequência da minha alma
O transplante capilar que fiz, sob esta nova luz, foi muito mais do que estético. Foi um ato simbólico de afinação... de sintonia. Um ajuste no instrumento para que ele soasse mais de acordo com a música que a minha alma insiste em tocar. Não para negar o tempo, mas para harmonizar a forma com a minha essência.
Portanto, descobri que “cuidar da alma” nesta fase da vida é um verbo ativo, quase musical: é sintonizar! É afastar conscientemente o ruído das agendas alheias (sejam elas do etarismo, do medo ou da simples pressão para “agir conforme a idade”) e buscar, todos os dias, as práticas, as leituras, as conexões e os silêncios que mantêm a minha vibração alta, clara e alinhada com aquilo que realmente sou por dentro.
A jornada final: integrando os lobos e vivendo na minha frequência
A conclusão depois dessa longa viagem reflexiva me oferece um novo ponto de partida.
Meu dilema não se resolve escolhendo qual lobo tem razão. Ele se dissolve quando percebo que a jornada não é sobre decidir se sou jovem ou idoso, mas sobre escolher em qual frequência quero viver.
O corpo terá seus limites, a carteira de identidade terá seus números, mas a alma, essa energia que sou eu, só pede para vibrar. E a mim, cabe o trabalho amoroso e diário de encontrar os canais certos, elevar o tom e tocar a sinfonia única desta minha existência, com a intensidade que sempre tive, independentemente do ano no calendário.
O sofá pode até ser confortável, porém nunca será a minha afinação preferida. Minha sintonia está lá fora, na vida, nas minhas caminhadas, meditações e novas experiências, sempre em alta frequência.




Comentários