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Ichigo-Ichie: o que estou vivendo agora não se repetirá nunca mais

  • há 2 dias
  • 7 min de leitura
Capela N. S. Graças Caminho da Fé
Na frente da Capelinha N. Sa. das Graças - Caminho da Fé - 03 de junho de 2024 - foto de Mauro Segura


Ichigo-Ichie: o que estou vivendo agora não se repetirá


Era o dia 07 do Caminho da Fé, junho de 2024. Eu já havia caminhado aproximadamente 180 quilômetros desde a minha partida de Águas da Prata, SP. Faltavam ainda 137 quilômetros até o ponto de chegada em Aparecida.

 

Estava quase no Pico do Morro do Machadão, altitude próxima de 1.500m, em algum ponto entre Consolação e Paraisópolis, em Minas Gerais. Me sentia cansado, mas bem-disposto. A subida da serra tinha sido pesada. O dia estava lindo, com sol forte e céu azul.  

 

Ao chegar em um dos pontos mais altos do caminho, me deparei com uma vista extraordinária de quase 360 graus. Montanhas, todas verdes, abaixo do meu nível, me cercavam.


Caminho da Fé, no alto das montanhas, céu azul e sol forte
Montanhas por todos os lados, céu azul e sol forte - Caminho da Fé - foto de Mauro Segura

A conexão entre natureza e espiritualidade

 

Ali, do meu lado, havia uma capela. O Caminho da Fé é recheada de pequenas capelas ao longo do percurso, todas lindas e energizantes. A Capelinha Nossa Senhora das Graças é toda branca, por dentro e por fora, com telhadinho tradicional. Ao lado, um banco pintado de amarelo.

 

Retirei a mochila das costas. Me sentia muito leve. Algo aconteceu. O cansaço desapareceu.

 

Estava sozinho, me sentindo pleno. O silêncio era incrível. Me sentia no céu, de alguma forma perto de Deus. O cenário era celestial. Passava uma brisa suave, fria, revigorante. Parecia uma mão me acariciando.


Capelinha Nossa Senhora das Graças, branca e simples, no meio do Caminho da Fé
Capelinha Nossa Senhora das Graças, branca e simples, no meio do Caminho da Fé

 

Impossível descrever a sensação que sentia ali. Era uma mistura de plenitude, paz e felicidade. Naquele momento eu não precisava de mais nada. Lembro de desejar que aquela sensação nunca acabasse. Como conseguir isso? Obviamente que seria impossível.

 

Lembro de ter um pensamento recorrente:


“O que estou vivendo e sentindo agora não se repetirá. Como posso eternizar essa sensação dentro de mim?”

 

Outros pensamentos surgiram:

“Qual é real razão de estar sentido algo sublime, mágico e celestial?”

“Como perpetuar isso em minha vida?”

“Estou viciado nisso! Eu quero isso para sempre na minha vida”.


No meu planejamento do Caminho, aquela parada não deveria levar mais do que 10 minutos. Com certeza, fiquei lá mais de 1 hora.

 

Estava me sentindo tão pleno, que gravei um vídeo naquele momento. No vídeo é possível ver minha perplexidade e até entorpecimento do que eu estava vivendo. Também é possível ver os meus lábios cortados por conta do frio intenso que vivi nos dias anteriores ao longo do caminho.


Vendo o vídeo agora, revivo aquele momento de estarrecimento diante daquela janela de plenitude.  

 

Eu queria que o tempo parasse ali, naquele local, naquele momento!

 

Um momento de intensa plenitude capturada em vídeo - Caminho da Fé

A arte de transformar momentos em experiências únicas

 

Recentemente, em um papo com a minha amiga Mariana, nós filosofávamos sobre o universo e a existência humana. Ela me confidenciou que vive um momento de “muita felicidade” na vida e soltou a frase:


“Como é maravilhoso ser dono da própria agenda”. 

 

Essa frase se fixou na minha cabeça. Fiquei semanas pensando nisso.

 

Vivo a fase mais maravilhosa da minha vida e tenho tentado entender qual é o verdadeiro segredo desta minha fase iluminada. Qual é a real razão que está por trás da minha paz de espírito, leveza e felicidade diária?

 

  • Será que é porque vivo um casamento maravilhoso?

  • Será que é porque tenho filhos formidáveis que estão bem encaminhados na vida e independentes?

  • Será que é porque deixei o mundo do trabalho corporativo que era super drenante e encontrei uma fórmula mais adequada de trabalho?

  • Será que é porque optei por uma vida minimalista?

  • Será que é porque eu sinto a minha dimensão espiritual plenamente alimentada?

  • Será que é porque reduzi ao máximo as minhas expectativas e estou pondo foco total em viver o presente?

  • Será que é porque consegui estabelecer uma vida equilibrada e suficiente para os meus sonhos e minhas ambições?

 

A lista é longa de possíveis perguntas e respostas específicas. Porém, nenhuma das respostas é uma resposta completa, ampla e convincente.  


No entanto, tem algo que está presente em todas as respostas acima e que parece explicar tudo: liberdade!

 

Caminho da Fé, sempre com cores constrantes, perto do céu e intensa paz
Caminho da Fé, sempre com cores constrantes, perto do céu e intensa paz - foto de Mauro Segura

 

Liberdade e plenitude: vivendo o presente com intensidade

 

Hoje eu me sinto um ser livre.

 

Eu alcancei a liberdade porque deixei um trabalho que me prendia e me limitava. Hoje o meu trabalho me dá muita flexibilidade. Ganhei mais liberdade quando meus filhos se tornaram independentes financeiramente. A minha vida minimalista reduziu a minha mochila da vida. A minha esposa é apaixonada pela liberdade individual, esse é um valor de vida para ela: viver a nossa essência. Reduzi expectativas e, com isso, reduzi obrigações e ansiedade. Hoje eu tenho mais clareza do que me é suficiente para me fazer uma pessoa em paz e feliz.


Enfim, tudo isso, e muito mais, junto e misturado, converge para uma vida leve e liberta de âncoras, amarras e vieses.  



Como a maturidade traz clareza e paz interior

 

A frase da Mariana reconfigurou algumas coisas na minha cabeça porque agregou novas tinturas ao meu sentimento de liberdade.


A principal delas é que ela me deu clareza de que a “minha liberdade” está intimamente conectada ao "domínio do tempo". Eu não havia pensado nisso com profundidade.

 

Tudo que vem acontecendo na minha vida está relacionado ao domínio do tempo, à maior disponibilidade de tempo para mim e para o que eu prezo.


Estou mais egoísta (sou um egoísta do bem!) e me priorizando na vida.

 

Quando eu me torno a minha principal prioridade, todos que estão ao me redor ganham, porque eu passo a estar com eles por inteiro, na minha intensidade, na minha potencialidade e na minha essência. Sou eu na potência máxima.

 

O domínio do tempo tem íntima conexão com minha liberdade
O domínio do tempo tem íntima conexão com minha liberdade - foto e montagem de Mauro Segura

Minimalismo e redução de expectativas


Obviamente que o meu estado de espírito não tem apenas a ver com o domínio e disponibilidade do tempo. Também tem a ver com o que faço com o tempo que ganhei para mim, com as minhas escolhas e decisões de vida. 

 

De repente a equação se materializa na minha mente.

 

A ressignificação do tempo e das escolhas que fiz ao longo da vida me mostrou que a liberdade não é apenas uma questão de agenda, mas de como decido viver cada momento. A maturidade me trouxe a clareza de que o tempo é um recurso finito, e cabe a mim dar sentido a ele.

 

Em resumo: a sensação de liberdade, paz e bem-estar vem do tempo e das escolhas.

 

Como é boa a maturidade da vida, não é mesmo? Ela parece me dar maior clareza das coisas, mais lucidez e menos pressa. A ansiedade diminuiu. Aprendi a contemplar mais.


As coisas parecem menos complicadas, até mais simples do que verdadeiramente são, pois passei a colocar as coisas no seu devido lugar e no seu devido tempo.


Livro ichigo-ichie: a arte japosena de transformar cada instante em um momento precioso - foto de Mauro Segura
Livro ichigo-ichie: a arte japosena de transformar cada instante em um momento precioso - foto de Mauro Segura

Ichigo-Ichie: valorizando cada instante

 

Meses atrás, pesquisando livros e novas leituras sobre “tempo” e “momentos”, eu encontrei um livro especial. Chama-se ichigo-ichie, de Francesc Miralles e Héctor Garcia.

 

Ao abrir o livro, logo no início, me deparei com a seguinte definição: Ichigo-ichie é uma expressão japonesa e significa: “o que estamos vivendo agora não se repetirá nunca mais”.

 

Imediatamente me lembrei do momento descrito no início desse artigo. Naquela capelinha, eu vivi algo muito especial e tinha plena consciência disso. Aquele era um momento único, absolutamente impossível de ser vivido novamente.

 

O livro “ichigo-ichie” é tipicamente um livro de autoajuda, o que muitas vezes afasta o interesse das pessoas, mas tudo depende da forma como lemos e interpretamos as inúmeras histórias contadas.

 

Antes de tudo, é um livro sensível, repleto de histórias que geram reflexões. Basicamente o conceito é vivermos o presente com plenitude, reconhecendo e aproveitando o que nos é oferecido a cada instante. Cada experiência que vivemos é um tesouro único que nunca se repetirá da mesma maneira. Portanto, se o deixarmos escapar sem desfrutá-lo, ele estará perdido para sempre.


Retiro Vipassana Dhamma Santi
Quando fiz o Retiro Vipassana eu tinha consciência de que vivia um momento único, que nunca mais se repetiria na vida - foto de Mauro Segura

Aprendendo a ser um "caçador de bons momentos"

 

O livro cita uma expressão que adorei: “caçador de bons momentos”.

 

Ser “caçador de bons momentos” envolve algumas práticas, muitas delas não citadas no livro, como por exemplo: mergulhar no presente com atenção plena, fazer algo que nunca fiz, ler e acreditar nos sinais que a vida me envia, perceber e aproveitar as coincidências do destino, acreditar mais na minha inspiração, ser mais espontâneo, ser grato por tudo que tenho e recebo, não ter pressa de fazer as coisas, ter tempo livre e me aproximar de coisas e pessoas que me fazem ser um ser humano melhor.

 

É muito mais simples do que parece, mas como qualquer ofício, quanto mais eu treinar, mais abundantes e generosas serão as minhas recompensas. Cada momento é um belo tesouro.


Aquela sensação de momento único que vivi no Caminho da Fé, eu também senti quando subi o Monte Roraima, exatamente no momento que cheguei no topo e me deparei com aquela "imensidão de mundo". A foto que publico no final desse artigo registra esse momento.



Aprendizados e compromissos: o que levo dessa jornada


Essa jornada me ensinou que a liberdade não é apenas uma conquista externa, mas um estado interno que se constrói com escolhas conscientes e prioridades bem definidas.


Aprendi que o domínio do tempo é um dos pilares dessa liberdade, mas ele só ganha significado quando alinhado ao que verdadeiramente importa: viver com presença, gratidão e autenticidade.


Assumi, então, um compromisso comigo mesmo: buscar valorizar cada instante vivido como único, seja em momentos de plenitude absoluta, como naquela capela no topo da serra, no topo do Monte Roraima, como também no cotidiano simples do dia a dia. Você pode até não acreditar, mas eu pratico isso quando cuido das "minhas plantas" de casa.


Não se trata de buscar a perfeição ou fazer algo extraordinário, mas de reconhecer a beleza e a singularidade de cada experiência. Afinal, como o Ichigo-Ichie me mostrou, o que vivemos agora nunca se repetirá da mesma forma. E é justamente isso que torna a vida tão extraordinária.



No topo do Monte Roraima, diante da imensidão da natureza exuberante e infinita
No topo do Monte Roraima, diante da imensidão da natureza exuberante e infinita - um momento único e mágico - setembro de 2023 - foto de Mauro Segura

3 comentários

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Fabio L Marras
há 2 dias
Avaliado com 5 de 5 estrelas.

Seu vídeo perto na Capelinha de Nossa Senhora, "bem no topo da Serra" é extremamente profundo e tocante. Ele nos lembra de valores importantes que, muitas vezes, acabamos esquecendo no corre-corre do dia a dia.

Parabéns pela jornada e por compartilhar esse momento tão especial conosco.

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Convidado:
há 2 dias
Avaliado com 5 de 5 estrelas.

Suas histórias me fazem descobrir um tantinho mais para viver! Gratidão por ensinar com simplicidade e natureza!

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Jeane Rego
há 2 dias
Avaliado com 5 de 5 estrelas.

Muito inspirador e reflexivo. Muitas perguntas acompanharam a leitura; desde a tentativa de me lembrar de momentos de plenitude, sobre os movimentos da/na vida e onde eles nos levam, como também sobre o elo entre o Mauro que me deparei no mundo corporativo e o Mauro caçador de bons momentos (ou seria criador de bons momentos). Obrigada por compartilhar a magia da sua jornada e da sua escrita admirável.

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