O que é uma vida que vale a pena?
- 2 de jun.
- 11 min de leitura
Gravo esse artigo em áudio, na noite de 03/05/2026, domingo, dentro do meu carro, dirigindo, chegando em Goiânia. No dia seguinte, faço a transcrição em texto, implementando ajustes para dar mais fluidez e clareza na narrativa.

Hoje, domingo (3/5/26), muito cedo, ainda de madrugada, saí da residência de minha mãe no Rio de Janeiro. Estava com meu carro, sozinho, voltando para minha casa na maravilhosa Goiânia. Valéria está me esperando lá.
O plano de viagem contempla aproximadamente 1.400km de estrada e um pouco mais de 16 horas no volante. Já fiz esse percurso várias vezes no meu Renegade. No entanto, hoje está sendo diferente: eu estou na fossa.
Acordei às 3h30 da manhã, no meio da madrugada. Exatamente às 4h, me despedi de minha mãe e entrei no carro. Em poucos minutos, ainda no centro urbano do Rio, dirigindo, acessei o whatsapp e encontrei uma mensagem em áudio do meu primo.
A mensagem que mudou a minha viagem
A mensagem havia sido enviada às 21h30 do dia anterior, sábado. Porém, neste horário, eu já estava dormindo. Eu não ouvi a mensagem, muito menos vi a notificação.
Coloquei a mensagem no viva-voz do carro e tomei conhecimento que a minha tia faleceu ontem, às 21h.
Passei uma boa parte da viagem ouvindo músicas. Deixei Narada Decade em loop, no spotify... é um CD duplo de músicas melancólicas, apenas instrumentais, que me remetem ao passado, de uma fase em que viajava muito, me sentia solitário e distante das pessoas que amava. Essa música, de certa forma, me reconforta em momentos difíceis, ao mesmo tempo que me leva para um estado meditativo mais profundo.
A minha tia Creusa estava em tratamento de câncer há mais de 2 anos, vivendo altos e baixos. Atualmente, ela estava internada no hospital. Esse último período já tinha aproximadamente 40 dias contínuos de internação.
Recebendo altas doses diárias de medicações diversas, incluindo morfina, ela estava praticamente em estado inconsciente devido ao câncer avançado.
A notícia de sua partida não deveria me surpreender. Eu já estava preparado para isso, mas a notícia veio e bateu fundo dentro de mim. Não tem jeito, por mais que estejamos preparados, a gente nunca fica indiferente perante a morte, especialmente envolvendo pessoas que amamos.
A minha tia faleceu com 89 anos de idade, pertinho do seu 90º aniversário.

Minha tia Creusa: uma vida simples e feliz
Ela não foi uma pessoa famosa. Nunca se casou. Nunca teve filhos. Nunca teve um trabalho sofisticado, nunca foi chefe ou não conquistou projeção profissional. Mas sempre trabalhou, tinha uma pequena renda própria e estava aposentada.
Minha tia era uma pessoa muito quieta, introvertida e, acima de tudo, muito reservada. Sempre nos referíamos a ela como uma pessoa tranquila e em paz. E é isso mesmo: olhando de fora, minha tia sempre pareceu ser uma pessoa feliz. Era resignada com o que tinha.
Agora, vendo-a partir, penso sobre ela mais profundamente. Confesso, porém, que nas semanas mais recentes muitos pensamentos sobre ela já ocupavam a minha mente.
Pequenos prazeres: os desenhos, os lápis de cor e a TV
Nos últimos anos, ela intensificou o seu gosto por assistir TV, especialmente novelas, Big Brother, programas de fofoca e noticiários do cotidiano. Também gostava muito de desenhar. Ela tinha muitos cadernos, em que fazia desenhos à mão livre e usando esquadro, compasso e lápis de cor. Na casa dela, eu vi centenas, talvez milhares de folhas de papel desenhadas e pintadas por ela nos últimos anos. Eram desenhos simples, com pintura leve, sempre usando lápis de cor, que inevitavelmente viravam cotocos.
A simplicidade escancara o que é essencial

Será que a minha tia foi feliz?
Dentro do carro, agora, voltando para casa, já tendo passado várias horas dirigindo na estrada, sozinho, pensativo, uma pergunta me surge em loop:
Será que a minha tia foi feliz? Será que ela teve uma vida feliz?
Na esteira desta pergunta, emergem as inevitáveis questões existenciais sobre finitude:
Onde ela deve estar agora? É assim mesmo? Ela morre e tudo termina? O que fazer com seus desenhos e lápis que tanto amava?
Foram horas tentando elaborar respostas para perguntas que surgiam em profusão. E pior, uma pergunta me levava a outra, acumulando questões sem respostas.
Será que a vida da minha tia valeu a pena? Foi inevitável refletir sobre a minha vida, a vida da Valéria, a vida da minha mãe, dos meus filhos...
Afinal, o que é uma vida que vale a pena?
O que a serenidade diante da morte me ensinou
Ao lembrar da minha tia, internada nas últimas semanas no hospital, lembro que ela não reclamava de nada. Vale dizer que ela e meu primo moram em Goiânia (portanto na mesma cidade onde resido), e que o hospital onde estava é excelente.
Eu tive oportunidade de passar dias e noites continuamente com ela no hospital. Ajudei em seu cuidado, na troca de fraldas, nos banhos, na rotina massacrante do hospital. Vivi momentos íntimos com ela. Conversamos muito, mesmo com seu jeito quieto e introvertido. Sempre esteve consciente e participativa durante todo o tempo. Somente nos últimos dias ela foi perdendo a consciência devido ao aumento das doses de medicação e da morfina.
Ela sempre me pareceu “estar bem”, em paz, apesar do tratamento impiedoso. Tudo que era dado para ela, ela aceitava: as intervenções, os exames quase diários, as brigas dos remédios em que um remédio conserta uma coisa e estraga outra, as veias secas e diminutas que estouravam o tempo todo por conta das centenas de picadas.
Talvez a necessidade de comer e beber era a única coisa que ela realmente reclamava. Nos últimos meses de vida ela perdeu completamente o apetite e a sede. Era uma “guerra” fazê-la comer e beber. Mas fora isso, ela sempre se mostrou em paz e resignada. Aceitando, aceitando, aceitando...
Muitas vezes, nas conversas íntimas com ela, eu tentei puxar uma conversa sobre finitude e/ou espiritualidade, mas ela sempre se furtava. Esta não era uma conversa de seu interesse, mas certamente ela tinha seus pensamentos. Talvez, na intimidade da mente, ela estivesse contando em encontrar com meu pai, a irmã ou até a mãe, em outra dimensão, todas pessoas amadas que já partiram. Quem sabe?
O que sempre me surpreendeu foi a sua calma e serenidade diante de tudo. Ela parecia ter cumprido o papel de sua existência terrena e agora estava pronta para o novo capítulo de sua vida, ou seja lá o que for.

O que a filosofia diz sobre felicidade
Hoje faz uma semana que escrevi o texto acima. Não sei como continuá-lo. Aliás nem sei se devo continuar.
Releio o texto e a pergunta “O que é uma vida que vale a pena?” continua martelando dentro de mim.
Digito a pergunta na linha de busca do google e despretensiosamente navego pelos resultados. Encontro algumas coisas boas.
A "vida completa" de Jair Ribeiro
O artigo “O que é uma vida que vale a pena ser vivida?”, assinado por Jair Ribeiro, fundador e presidente da Casa do Saber, faz uma análise ampla, explorando o conceito de “vida feliz”. Muito bom!
Ele fala em conceitos diferentes de vida, como por exemplo: vida centrada no prazer; vida centrada no propósito; viver de acordo com a própria essência, tendo como guia a virtude; viver com curiosidade, na busca de abertura intelectual e disposição para experiências diversas. E recheia tudo isso citando pensadores e filósofos. Trata-se de uma boa inspiração para o tema e me despertou bons insights.
Por fim, Jair Ribeiro fala no conceito de “vida completa”, apresentando-a como um mosaico recheado de prazer, propósito e curiosidade. Parecem dimensões conflitantes, mas o autor não vê esses caminhos como excludentes, afirmando que juntos compõem o tecido de uma vida que merece ser vivida.
Faço uma autoanálise de minha vida atual sob este prisma de “vida completa” e gosto do que penso. Recomendo muito a leitura do artigo.
Prof. Clóvis de Barros Filho: a felicidade como instante
Em uma palestra famosa chamada “A vida que vale a pena ser vivida”, disponível no Youtube, o Professor e Filósofo Clóvis de Barros Filho explora o tema.
A palestra é longa, recheada de boas histórias pessoais, misturadas com filosofia e mitologia. Apesar do evidente exagero de gracinhas e piadas, o Prof. Clóvis deixa mensagens importantes.
A palestra entra no foco do “que é felicidade na vida” da metade para o final da existência. Ele reforça o conceito de que verdadeira felicidade está intimamente conectada ao uso adequado da nossa liberdade individual em fazer escolhas, que a alegria de ontem não garante a alegria de hoje e diz: “eu sou diferente de você: o mundo que me alegra não é o mesmo mundo que te alegra. Portanto, vá procurar a alegria no seu canto”.
O que mais gosto é o pitch do fechamento da palestra, que transcrevo abaixo.
"O que será que tem que acontecer na vida para ela valer a pena?
Para Aristóteles é a excelência de si mesmo. Para Jesus é entrega e o amor. Para Espinoza é a alegria e a potência de agir. Para Rousseau é a liberdade e a fidelidade aos próprios valores.
Qual dos quatro será que tem razão? Certamente os quatro.
Sua vida é melhor se você explorar o que você tem de mais forte.
Sua vida é melhor se você se entregar aos outros, se tiver com quem comemorar e tiver gente feliz por perto.
Sua vida é melhor se você conseguir se alegrar.
Sua vida é melhor se você decidir com inteligência e com fidelidade.
Por isso os quatro falam em felicidade. E eu acho também.
Felicidade é um instante da vida, que a gente gostaria de um dia repetir. Um instante da vida que você gostaria que não acabasse ali. Um instante da vida que você gostaria que num outro dia a gente fizesse de novo. Felicidade é esse instante que você um dia pretendeu a eternidade. Felicidade é esse instante que você lamenta que tudo na vida tenha um fim. Felicidade é esse instante, que se Deus quiser,um dia a gente vai repetir, porque espero que pelo menos por um segundo você tenha rido e desfrutado, que pelo menos por um segundo tenha pensado em coisas que não tinha pensado antes, que pelo menos por um segundo tenha pensado em trazer a mãe ou o filho. E se alguma dessas coisas aconteceu, admita. Nesse singelo segundo, você foi feliz".
As lições que minha tia me deixou
Ainda pensando no que faz uma “vida valer a pena”, resgatei a lembrança de alguns livros já lidos e relidos por mim, como “Escolas dos Deuses”, de Elio D’Anna, e “Em busca de mim”, de Viola Davis, ambos espetaculares.
Viola Davis e a honestidade radical
Na orelha do livro de Viola Davis, está escrito:
“Escrevi este livro para quem precisa se lembrar de que a vida só vale a pena ser vivida se a encararmos com honestidade radical e apenas ser... você. Este livro é uma reflexão profunda, uma promessa e uma declaração de amor a mim mesma. Espero que a minha história o inspire a revolucionar sua vida de forma criativa e a redescobrir quem você era antes que o mundo tentasse defini-lo”.
Impossível não criar uma ponte entre o depoimento de Viola Davis e a vida da minha tia.
Penso na frase e na minha tia:
“Viver a vida com honestidade radical a você mesmo, à sua essência”.
Concluo que a minha tia me ensinou algumas lições.
Um picolé Magnum e uma vida que vale a pena
Aprendi com ela que “uma vida que vale a pena” não precisa ser uma vida magnânima, sofisticada, frenética, muito menos ter que “conhecer 1001 lugares antes de morrer”. Basta algumas folhas de papel e lápis de cor, uma TV para ver o programa favorito, uma gelatina de morango ou até um picolé Magnum, mas tem que ser o clássico de chocolate, dentro de um quarto de hospital.
Para a minha tia, a vida sempre pareceu ser muito mais simples do que para a maioria das pessoas. Ela sempre foi honesta a ela mesma. Sempre viveu o presente e nunca demonstrou uma preocupação com conquistas e futuro.

Como a finitude nos ensina a viver o presente
Acho que entendi melhor a cabeça de minha tia quando assisti o vídeo “Como minha doença grave me fez mudar o olhar sobre a vida”. Trata-se de um corte de uma longa entrevista dada pelo mesmo Professor Clóvis de Barros Filho, citado anteriormente.
Neste vídeo, o Prof. Clóvis fala sobre a sua doença autoimune grave, incurável, e como ela alterou profundamente a sua percepção de tempo e valorizou o momento presente, suas escolhas e prioridades.
Ele afirma:
A doença tem um efeito benéfico. Mudamos para melhor como seres humanos. Quando estamos diante de uma possível finitude, abandonamos o futuro imaginado e vivemos cada momento presente com mais intensidade e presença. Tudo ganha novas tinturas. Passamos a creditar as experiências do presente um imenso valor... qualquer experiência. Não aceitamos mais vivê-las pela metade. Cada experiência tem que valer por ela mesma.
E diz: “Pessoas que passaram por perrengues sérios falam isso: elas passam a viver mais intensamente o presente, não pensam mais no futuro porque o futuro pode não existir no minuto seguinte”.
Me vem à mente a seguinte imagem: minha tia, na cama do hospital, internada, com equipamentos ligados ao seu corpo, sonda, soro, medicação pingando... e ela leve, desconectada de tudo, saboreando o picolé proibido pelos médicos e vendo TV, atenta às fofocas do BBB. Lembro bem desta cena.
A grande armadilha da vida moderna
Talvez a grande armadilha da vida moderna seja justamente essa: achar que é preciso fazer muito, acumular, viajar, construir um legado. Minha tia desmontou essa armadilha sem dizer uma palavra. Ela apenas viveu. E, vivendo, me mostrou que o legado não é o que deixamos para trás, mas o que fomos enquanto estivemos aqui.
Quando estamos ocupados demais, não temos tempo de questionar se a vida que vivemos é realmente nossa.
Ao refletir sobre essa armadilha, lembrei de Henry David Thoreau. No século XIX, ele decidiu viver sozinho numa cabana simples às margens do lago Walden. Não para fugir do mundo, mas para reduzi-lo ao essencial. Ele queria viver com o mínimo porque sabia que o excesso esconde o que realmente importa. Esconde a pergunta que ninguém quer fazer: essa vida que eu vivo é minha ou é a que me empurraram? Thoreau passou mais de dois anos nessa experiência e escreveu sobre isso em seu excepcional livro "Walden", impactante e profundamente filosófico.
Ele diz: "A maioria dos homens vive uma vida de silencioso desespero". Gente ocupada. Gente que produz, acumula, performa. Mas não pergunta. Não tem tempo de perguntar. E morre sem ter vivido a própria vida.
Minha tia nunca leu Thoreau. Mas me arrisco a dizer que aprendeu sozinha o que ele aprendeu vivendo às margens do lago. Ela simplesmente vivia. Sem pressa. Sem justificativa. Ela não prestava contas ao mundo e vivia a vida do jeito dela.
Com esta cena em mente, surge a excepcional frase dita pelo Prof. Clóvis no vídeo anterior:
“A minha vida é uma homenagem a minha natureza e devo vivê-la como sempre a vivi”.
Foi aí que tudo ficou mais claro em minha mente.
Viver o presente como homenagem a si mesmo
Em suas últimas semanas de vida, a maior lição que a tia me ensinou é que a única coisa que realmente temos ao longo de toda existência é “viver o presente”.
Uma “vida que vale a pena” é aquela bem vivida no presente, onde cada experiência vivida, por mais simples que seja, torna-se uma homenagem a nós mesmos e a nossa essência. Basta vivermos com plenitude e autenticidade
É preciso desobedecer ao que o mundo berra e aprender a ouvir o que a consciência sussurra.




Como sempre uma excelente reflexão! Ouso sugerir, em adição aos livros que vc menciona no texto, a leitura do Mito de Sísifo, de Albert Camus. Abraços.
Muito bom.
Meu caro Mauro, sempre mexendo com nossas emoções mais profundas. Certamente a tia Creusa viveu a boa vida dentro dos parâmetros que ela mesma traçou e você descreveu tão bem. Ela fez a escolha por viver só, consigo mesma e talvez por isso tenha conseguido negociar as expectativas, as frustrações e as esperanças que cruzam nosso caminho e criam os atritos quando temos de dividi-las com mais alguém. Dividir reduz o peso, mas amplia os conflitos, não é? Ela escolheu carregar o peso sozinha e, com certeza, calibrou para carregar o que suportava. 89 anos representam um bom período de passagem por aqui, e pelo que li em seu texto, ela causou impacto e influência nos que a conheceram. Que…