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O que permanece quando o tempo leva quase tudo?

  • há 2 dias
  • 8 min de leitura
Pilha de álbuns fotográficos antigos e desgastados, representando memórias, lembranças e histórias de vida acumuladas ao longo dos anos.
Álbuns que guardam décadas de vida, memórias que resistem ao tempo - foto de Mauro Segura

Certo dia, ao acessar o LinkedIn, surgiu na minha frente o texto abaixo atribuído a Clint Eastwood, compartilhado por Rogério Sampaio:


Aos 95 anos, Eastwood falou sobre a velhice de forma crua, direta, sem tentar suavizar a realidade. Num discurso recente, descreveu o que o tempo faz ao corpo.


Os ossos perdem elasticidade, os movimentos tornam-se lentos, pesados. A luz começa a cansar os olhos e até o simples ato de respirar pode exigir esforço. E depois… vem o resto. Porque, segundo ele, o mais difícil não é apenas o corpo - é o que se perde por dentro.


Depois dos noventa, muitas das pessoas que amamos já partiram. As presenças diminuem, o silêncio cresce, os dias mudam de ritmo. E, por vezes, torna-se raro encontrar alguém que realmente queira ouvir. É nesse vazio que a memória ganha voz. Voltar ao passado deixa de ser escolha e passa a ser necessidade. Recontar histórias, repetir momentos, acrescentar detalhes - não para convencer quem escuta, mas para manter viva a própria continuidade de existir.


Ele compara esse gesto ao de um avô que fala aos netos, escolhendo o que deixar como herança - mesmo quando sabe que, do outro lado, o interesse talvez não seja o mesmo.


E no fim, tudo se resume a uma pergunta silenciosa e inevitável: o que permanece, quando o tempo leva quase tudo - e quase todos?



A pergunta que Eastwood plantou em mim


Esta seria mais uma leitura rápida no linkedin, porém a frase final me pegou e deu título a este meu post:

“O que permanece, quando o tempo leva quase tudo?”

Curiosamente, essa pergunta surgiu em um momento especial: a "limpeza total" do meu apartamento que tenho no Rio de Janeiro.


Em 2020, a Regina partiu. Foram décadas de vida em comum. A história do pós-partida da Regina está detalhadamente contada em dezenas de artigos no meu blog. Eu saí de uma casa enorme no bairro do Recreio na cidade do Rio para um pequenino apartamento. Essa história específica está descrita no artigo “Desapego, Escolhas e mudanças”. Ainda assim, naquela época, levei muitas coisas comigo para o novo apartamento.


Cinco anos depois estou me mudando novamente. Vale dizer que esse apartamento não é a minha residência oficial; tornou-se apenas um ponto de apoio no Rio quando visito a minha mãe. Um novo amor entrou na minha vida, a amada Valéria, me casei de novo, hoje vivo na maravilhosa Goiânia e me sinto o ser mais feliz do planeta. As coisas que ficaram no Rio, porém, continuavam intocadas no apartamento. Esperando.


Agora o apartamento do Rio está à venda e me vi diante da difícil missão de dar destino a tudo que está lá dentro, grande parte ainda com uma história atrelada à minha vida com a amada Regina. Foram muitos dias consecutivos dentro do apartamento separando objetos, revendo detalhes e lembranças. Alguns irão para meu filho e nora, outros para minha mãe, muitos serão doados e alguns poucos seguirão comigo para Goiânia.


Nesse processo, vivi questões emocionais e existenciais.

O que fazer com coisas que carregam histórias de vida, momentos sublimes, momentos de dor, lembranças de conquistas, fotos, vídeos, objetos de toda sorte?

O sentimento de apego é evidente. Neste blog eu já escrevi muito sobre desapego.


Arrumando as coisas, me veio à mente o livro “A Poética do Espaço”, do filósofo Gaston Bachelard, que li há tempos. No livro é dito:

Guardamos coisas porque elas são como órgãos da nossa vida secreta: o armário, as gavetas, aquele fundo falso no cofre onde ninguém mexe.

Portanto, em meu apartamento, no meio da tal "limpeza total", cada coisa que tiro desses lugares não é somente uma coisa, é um pedaço de mim que ficou em silêncio durante anos, esperando eu voltar para dar um destino a ele. E agora eu voltei.



Quarto com caixas, móveis e objetos separados durante processo de mudança e desapego, simbolizando organização, transição e limpeza de um espaço antigo.
O momento em que tudo precisa ser revisto, escolhido e deixado seguir seu caminho - foto de Mauro Segura


A segunda onda do desapego


Cinco anos atrás, quando deixei a casa do Recreio, eu já havia feito um grande movimento de desapego. Reduzi uma vida inteira de três andares para caber em um apartamento pequeno.


Na época, aquilo me pareceu radical. Hoje vejo que foi só o começo.


Poucas e pequenas caixas para 35 anos de história


Desta vez, o processo foi definitivo. Quase tudo que restava dos nossos 35 anos de história comum foi doado ou espalhado por pessoas que darão novos sentidos a esses objetos. Ao final, o que ficará comigo,coube tudo em poucas e pequenas caixas: algumas fotos, vídeos, documentos, pequenos objetos e lembranças. Três décadas e meia de vida compartilhada reduzidas a isso.


Mas aqui está o que descobri: estou bem... super bem! Não há dor. Não há apego pelo que se foi.


Tudo o que realmente importa continua comigo, não nas caixas, mas na cabeça e no legado do amor construído ao longo do tempo. Os laços que criamos, as histórias que vivemos, são energias que se misturaram ao meu presente de forma definitiva. Não precisam de suporte físico. Estão em mim.

Esse segundo desapego veio sem pressa e sem violência. Respeitei o meu tempo. Ouvi a minha alma. E respeitei todos a quem amo, inclusive a memória da Regina, que não está nos objetos, mas no que me tornei depois dela.


Sinto que esse processo caminhou junto com meu crescimento espiritual, que foi se tornando mais consciente nos últimos anos. Talvez por isso a leveza... talvez por isso a tranquilidade.


Pela primeira vez, sinto que não estou me despedindo de nada. Estou apenas deixando que as coisas sigam seu fluxo natural, enquanto eu sigo o meu, inteiro, grato e em paz.


Jaqueta colorida pendurada em cabide, representando roupas antigas, estilo pessoal e objetos guardados ao longo dos anos.
A minha jaqueta amada, comprada em 1994 quando morei nos Estados Unidos. Muitas lembranças, histórias e viagens desta jaqueta em mais de 30 anos - foto de Mauro Segura

O que fazer com o que não tem mais serventia?


O mais difícil, talvez, tenha sido decidir sobre o que fazer com os documentos pessoais da Regina: diplomas, certificados guardados com cuidado, nossas cartas de promessas de amor eterno e pequenos objetos pessoais que ela tanto amava.


A inutilidade dos papéis que guardamos com tanto esmero


Regina não está mais aqui. Nada do que está lá tem serventia. A frase é dura, mas é tudo realmente inútil. Durante anos, ela juntou e guardou cada pedacinho de papel, cada lembrança. Eu ajudei a organizar. Ali estão milhares de fotos impressas, todas com data e local. Qual a importância disso agora?


Quando encontrei o velho radinho de pilha do meu pai, aquele que ele levava aos estádios nos anos 70, comigo ainda pequeno ao lado, fiz uma viagem ao passado, foi uma espécie de experiência sinestésica. Aquele rádio, já sem utilidade prática, desperta em mim uma espécie de presença. Ele lembra o jeito como meu pai segurava a minha mão, as nossas conversas, o som das arquibancadas, a sensação de segurança e descoberta por estar ao lado de meu pai. Não é saudade do objeto, mas do vínculo. O rádio não funciona mais, mas ainda acende uma emoção simples e direta: a de ter sido amado e introduzido à vida por alguém que me guiava com naturalidade. Isso, sim, permanece.


Na famosa palestra “O Poder da Vulnerabilidade” (um dos TEDs mais assistidos da história), Brené Brown diz mais ou menos isso:

"Você pode guardar tudo o que quiser, mas só se sentirá em paz com o que ousa deixar ir".

A frase parece contraditória, fala em "guardar e deixar ir". Ano atrás, ela soou forte dentro de mim e sempre surge em minha mente no meu cotidiano. Não é sobre jogar fora. É sobre escolher. Toda escolha de permanência é, antes, uma escolha do que realmente importa.


Rádio de pilha antigo e desgastado, usado nos anos 70, simbolizando memória afetiva, infância, futebol nos estádios e lembranças do pai.
O rádio do meu pai que já não funciona, mas ainda acende lembranças que o tempo não levou - foto de Mauro Segura

A resposta que eu não esperava encontrar


É aí que surge a reflexão que motivou este artigo:

Afinal, o que realmente permanece quando o tempo levou quase tudo?

Qual o propósito de manter guardados todos os documentos, certificados, diplomas de alguém que já partiu? E os objetos pessoais, cartas ou até algumas roupas? Talvez seja fácil de entender a guarda de algumas fotos, mas faz sentido manter grandes álbuns com milhares de fotos?

Quando eu for embora, o que realmente vai permanecer?

Creio que esta pergunta não vale somente para o momento da partida. Ao ficarmos mais velhos, com a maturidade nos envolvendo, questões existenciais profundas emergem. Surgem perguntas fundamentais sobre finitude e continuidade da existência.


Tenho passado por grandes transformações. O que era importante para mim na década passada, hoje já não é mais. Repenso a importância das coisas, o bom uso do tempo, o cuidar do corpo e da mente. Converso com minha alma, com o meu “eu superior”, como se fossem observadores de mim, especialmente em meus momentos de introspeção.


Nos devaneios, dilemas e reflexões que povoam a minha mente, emergem perguntas que muitas vezes me faço diante de qualquer dúvida:

“Isso vale mesmo a pena? Estou fazendo por quê? Para quem? Qual é o real propósito e o real resultado dessa minha atitude ou ação?”

Esta inquietação interior, misto de agitação e serenidade que o tempo foi moldando, talvez seja a base de uma sabedoria que vem surgindo aos poucos, quase sem esforço intencional. Mas sei que não é só isso.


O meu interesse constante por psicologia e espiritualidade, esses estudos que nunca larguei, são o verdadeiro motor que abre novos horizontes e potenciais diante de mim. Na verdade, uma coisa alimenta a outra: o que o tempo entrega, a busca consciente transforma em estrada.


No fim de tudo, a pergunta “o que permanece, quando o tempo leva quase tudo” talvez não seja verdadeiramente uma pergunta para a fase de vida que venho vivendo, mas sim uma resposta. É ela que deve nortear, ser a base para as minhas atitudes, escolhas e decisões de vida.


E me parece tão claro agora: devo escolher pelo que vai permanecer de mim depois de tudo.



Imagem com CDs de música, crachás de eventos e envelopes de fotos antigas, representando memórias pessoais, trajetória profissional e registros fotográficos analógicos.
Memórias de diferentes épocas: música, trabalho e histórias impressas que o tempo acumulou - fotos e montagem de Mauro Segura


O legado que realmente importa


Não são os diplomas da Regina que ficam, mas o que ela fez com o conhecimento que eles representavam, as pessoas que ela tocou, os laços que construiu, o afeto que imprimiu em cada pessoa que cruzou o seu caminho. Não são as cartas de amor, mas o amor em si, que ainda vive em mim e nas histórias que vivi. Não são os objetos, mas as atitudes, as conexões e os comportamentos.


O que fica não é o que emolduramos na parede, mas o que emolduramos no outro. O afeto que conseguimos imprimir em alguém é o único objeto que o tempo não consegue levar. Essas sim serão as verdadeiras lembranças eternizadas por quem eu amo e por quem me ama.

A Valéria me ensinou, sem precisar dizer uma palavra, que o que realmente permanece não é o que acumulamos, mas o que escolhemos viver agora. O legado não está só no que deixamos em quem fica, mas está também no que construímos com quem chegou depois, com a coragem de amar de novo, inteiro, sem reservas, estabelecendo um novo capítulo no livro da vida.


Esse será o meu legado. Essa será a minha verdadeira história: moldada não em papéis ou em álbuns, mas na memória e no coração das pessoas.


Miniatura de figura masculina trabalhando em uma mesa com laptop, representando rotina profissional, carreira e ambiente de trabalho
O Mauro miniatura. A imagem colocada no topo do meu bolo de aniversário de 50 anos - um homem que trabalhava de terno, sempre acompanhado de computador, máquina fotográfica e celular - foto de Mauro Segura

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