Quando a saudade se transforma em vício

Espalhei as fotos selecionadas sobre a mesa, desorganizadas e fiquei olhando. Pensei na história de cada uma. Por alguns instantes, consegui me transportar para o momento de cada foto, afinal eu fiz todas.

Me fixei nas três fotos da nossa viagem ao sul do país e uma de Paraty, todas datadas de final de 2016. Entre todas, essas são as únicas fotos de antes de 2017. Também são as únicas fotos em que não sabíamos do câncer. Quando essas fotos foram feitas, o câncer desconhecido já estava crescido dentro da Regina e não tínhamos ideia do que viria pela frente. A viagem de férias ao sul foi uma das melhores de nossas vidas. Até hoje me sinto abençoado pela oportunidade de ter vivido um momento tão especial como esse, antes do turbilhão que viveríamos poucos meses depois.

Olho todas as fotos novamente. Seleciono cinco fotos, representando uma foto para cada ano, de 2016 a 2020. Reorganizo em ordem cronológica de tempo, da esquerda para a direta, desde a viagem já citada de 2016, antes da descoberta do câncer, até a foto na véspera de sua partida.

Penso no que uma pessoa desconhecida diria ao ver as fotos. Veria uma mulher sempre sorridente, leve, em todas as imagens, sem evidência clara de que contém mais de três anos de uma doença grave. Talvez até não consiga visualizar que todas as fotos são da mesma mulher, já que esse grupo de imagens abrange vários anos e mostra o processo de transformação física que minha amada passou, em função da doença e todos os tratamentos envolvidos.

Retorno as fotos ao álbum de duzentas fotos selecionadas da Regina. Ali tem fotos desde o nosso namoro até o início de 2020. As fotos estão colocadas, propositadamente, fora de ordem cronológica. Folheio o álbum displicentemente, deixando as imagens aparecerem ao acaso. Algo desperta dentro de mim.

O meu coração dispara quando vejo as fotos dos últimos meses de vida de minha amada. Isso sempre acontece. Já pensei tanto nisso. Sinto que o meu amor por ela se intensificou nos últimos anos, durante a doença. Aliás, vivo dizendo que esses foram os anos mais maravilhosos da minha vida com ela, porque o câncer amplificou todos os sentimentos e colocou tudo a flor da pele.

Passei os últimos anos falando para a Regina que a amava. Era o tempo todo isso. Todos os dias. Fazia carinho no seu cabelo ralo, massageava seus pés e mãos que perdiam a sensibilidade devido a quimio, fingia que não via a pele sofrida, enquanto enfiava o meu rosto no pescoço dela procurando ninho, me enrolando nela como uma ninhada de gatos.

Lembro dela falando para mim, repetindo várias vezes: “Eu não entendo você. Você gosta mais de mim do que antes. Quando eu era gostosona você não me dava tanta atenção quanto agora. Só pensava em trabalhar. Agora estou quase sem cabelo, toda inchada, gorda, pele feia, velha, unhas pretas e você fica grudado o tempo todo”. Depois de falar isso, ela sorria, completamente vulnerável, esperando o meu sorriso de volta, me estimulando ainda mais para que eu grudasse nela.

Como já disse, o meu amor por ela ficou ainda mais intenso durante a doença. Foi um amor crescente, que não permiti ser contido ou subjugado por tudo que vivíamos. Deixei esse amor florescer, da forma como viesse. Tive momentos de euforia como nos primeiros tempos de namoro com ela, ansioso por vê-la, abraçá-la e beijá-la. Dava flores. Vivia grudado.

A Regina partiu em 28 de fevereiro de 2020. Eu pensei que esse amor pudesse ser abrandado de alguma forma a partir de sua ausência. Pensei que o amor seria substituído pela saudade, como se algo saísse e algo novo entrasse. Mas não é isso que estou sentindo após quase nove meses de sua viagem. Continuo com um amor inesgotável por ela. É tão forte, que parece que esse amor continua crescendo dentro de mim.

Será que a saudade pode aumentar ainda mais o amor por uma pessoa já muito amada? O amor por alguém pode crescer depois que ela não está mais entre nós?

Antes vivia o amor pela minha amada. Agora vivo o amor e a saudade. Parece que se misturam, mas nem tanto assim. É que nem óleo e água, a gente até tenta misturar, mas não se misturam. Amor é amor. Saudade é saudade.

Tem dias que a saudade da minha amada vem muito forte. Eu não sei por que acontecem essas ondas, muito menos os gatilhos que provocam esses tsunamis de saudade. Acho que, nesses momentos, eu me canso de lutar e deixo a saudade vir com tudo. É como se eu estivesse no mar, ou em uma praia, incessantemente tendo que boiar, sobrepondo as ondas de saudade que vêm uma atrás da outra, sem dar trégua, sempre atento para não me deixar ser levado pelo mar, mexendo braços e pernas, sem parar. Isso cansa. Chega uma hora que eu largo e me permito momentaneamente ser tragado pelas condições do mar, para depois voltar ao ritmo de sobrevivência. É assim que vivo a minha saudade da Regina. Tem dias que me deixo ser carregado pelas ondas fortes da saudade. Parece que preciso disso.

A sensação é que vivo criando estratagemas para me distrair da saudade latente, pensando em outras coisas, me convencendo de que a minha vida atual é bacana, buscando incessantemente preencher meu tempo, ocupando a cabeça, gastando energia, e por aí vai. Ou seja, a cada minuto, imponho algo não natural à minha rotina, porque o natural seria viver para a saudade que tenho dela.

As vezes me enfio num canto apenas para me lembrar dela. Me sinto tão bem com isso. Me sinto invadido por uma sensação inebriante. Nesses momentos, eu decido que viverei assim eternamente: sozinho no canto pensando nela, para sempre.

A mesma saudade, que vem como ondas do mar, de tanto bater nos rochedos, parece moldar as pedras lentamente, aparando arestas e amenizando as suas imperfeições e asperezas. É isso que está acontecendo comigo. A saudade parece estar fazendo todos os “defeitos” da Regina desaparecerem.

A cada dia que passa, tudo que se conecta à Regina parece estar mais lindo e perfeito: nosso amor era perfeito, a nossa vida era perfeita e a Regina era perfeita. O tempo e a saudade estão lapidando as minhas lembranças e percepções, fazendo eu esquecer das coisas que me incomodavam e só me lembrando das coisas boas. O que era ruim está se tornando bom. Parece uma bateia de garimpeiro, onde somente as pedras mais preciosas ficam na peneira. A minha história com a Regina está assim: passando na bateia e ficando somente os momentos mais preciosos, belos, lindo e perfeitos.

Já não choro mais. Já não lamento mais a ausência da minha amada. Aprendi que isso é uma condição inerente da minha atual vida terrena. Me alimento de suas lembranças e recordações, com resignação e agradecimento. Ao mesmo tempo que isso me acalenta, isso também me amedronta, porque sinto medo do esquecimento.

Sinto medo do tempo provocar a perda de memórias que tenho da minha amada: de imagens, de flashs da nossa vida conjunta, dos gostos e sonhos dela, do seu cheiro, do seu olhar, do seu sorriso, do seu tato, do seu beijo… da sensação de suas mãos tocando o meu rosto. Tenho enorme medo de esquecer essas sensações. Isso talvez explique por que tantas pessoas que perderam pessoas queridas não se desfazem dos pertences e objetos dos entes amados. Acabamos guardando coisas que nos remetem ao passado, que nos despertam boas sensações e sentimentos, provocando uma percepção de aproximação com quem partiu.

Eu nunca senti algo tão forte na minha vida como a saudade que sinto agora da Regina. Confesso, constrangido, que não sei responder o que é maior: o amor por ela ou o amor pelos meus filhos. Não sei dizer. Também não sei dizer se essa pergunta faz sentido. A saudade que sinto dela é profunda, intensa e contínua. Nunca vivi com algo tão intenso dentro de mim.

Andei pensando se essa saudade pode se tornar um vício… ou se já é um vício. A saudade da Regina já faz parte do meu eu, faz parte do meu corpo e mente. Talvez o que eu sinta de verdade não é o medo de esquecer momentos da minha amada, nem o temor de descobrir que a vida atual sem ela pode ser realmente maravilhosa. Acho que, inconscientemente, o meu maior medo é perder essa saudade que está dentro de mim. Por isso eu tenho que mantê-la, regá-la, provar todos os dias que ela está viva e latente. Essa saudade é um vício, uma droga que me alimenta, me conforta, mas também causa dor. Sinto necessidade dela todos os momentos. Sou um dependente.