Eu e Mr Hyde

A minha vida de executivo, forjada em décadas de trabalho, me transformou em uma pessoa pragmática, racional, produtiva e avesso ao acaso. Fui treinado para planejar as coisas, determinar metas e persegui-las insanamente. Olhando para trás, acho que posso afirmar que as cicatrizes da minha vida, principalmente o lado profissional, me transformaram em uma pessoa mais fria, com pouca disposição para “gastar” tempo e energia com as pequenas coisas da vida, porque eu tinha sempre “grandes” coisas para fazer e “nobres” objetivos para superar. Me tornei um cara desinteressante.

Os últimos anos de vida de minha amada trataram de aparar muitas arestas e farpas da minha personalidade, me desafiando a rever conceitos, comportamentos e até prioridades que eu tinha dentro de mim. Todo o processo do câncer da Regina, culminando com a sua partida em fevereiro de 2020, produziram novas cicatrizes em mim, cobrindo e fazendo desaparecer cicatrizes antigas já formadas, deixando marcas e experiências profundas que ainda estão me transformando como ser humano. Definitivamente eu me sinto um ser diferente de um passado recente, um ser melhor, o que é uma benção.

Sendo honesto comigo mesmo, a própria Regina me mudou muito ao longo do tempo. Ela foi uma luz brilhante na minha vida, um farol, desde o início do nosso namoro, há quarenta anos. Ela me transformou por completo, me tornou um ser humano mais sensível, emotivo e acessível, vendo em mim uma pessoa que nem eu mesmo conhecia. Sou o que sou por causa dela.

Passei os últimos meses lidando com o luto indesejado. Me deixei levar por todas as emoções que o luto provoca. Vivi uma sensação de entorpecimento e alienação nos primeiros meses da partida da minha amada. No entanto, o Mr Hyde dentro de mim começou a despertar lentamente nas últimas semanas. Mas não é propriamente o Mr Hyde pecaminoso e amoral de “O Médico e o Monstro”, e sim o acordar da cabeça do executivo pragmático e lúcido que, de alguma forma, ainda está adormecido dentro de mim. Aquele que faz perguntas e fala umas verdades que, às vezes, não quero ouvir.

Nas últimas semanas eu tenho falado e repetido para mim mesmo: Você vai continuar enrolando? Vai continuar a se lamentar da vida? Vai continuar sem trabalhar? Vai continuar olhando mais pra trás do que olhar pra frente? Vai continuar dentro da ostra? A sua vida não acabou. Uma nova vida está começando agora. Pense no que a Regina diria para você se ela estivesse aqui do seu lado (e ela está!): vai tratar de ser produtivo e explorar o que sua nova vida te oferece!

O processo de luto está muito interessante e teve uma fase muito confusa. Os textos que venho publicando no blog traduzem a confusão que vivi ao longo do tempo. Generosamente (para mim!) eu chamo essa confusão de processo evolutivo. Contudo, ainda acho interessante ouvir amigos falando que eu estou indo muito bem no “meu luto”. Mas eles só veem a casquinha frágil de tudo que estou passando. A questão não é o que acontece fora, mas o que acontece na minha cabeça, essa sim é a jornada mais importante.

Mr Hyde, dentro de mim, irônico e sarcástico, me lembra de algo que escrevi em setembro de 2017. Foi um texto chamado “Quando vamos fazer algo diferente, Mauro?”, onde eu comentava que precisava desesperadamente aprender e fazer coisas novas, conhecer novas pessoas e mudar o curso da minha vida… de alguma forma. Minha sensação era que a minha vida se concentrava em “manter os mesmos pratos sempre girando”, enquanto minha alma pedia “novos pratos”.

Pois bem, o gênio saiu da lâmpada e atendeu o meu pedido, porém de uma forma diferente do que eu realmente queria. Mas aqui estou eu: muitos pratos da minha vida caíram, portanto eu não preciso me preocupar em mantê-los girando, até porque eles não existem mais. Estou completamente livre e desimpedido para girar novos pratos. Mas onde estão os novos pratos?

Ironicamente, algumas vezes, sinto saudade dos pratos antigos. Que confuso isso, hein? Eu já estou em um contexto de vida diferente, mas dentro de mim eu carrego um passado… um passado repleto de pratos (alguns quebrados) que parecem estar dentro de uma mochila nas minhas costas. A mochila é o meu passado e ainda é muito pesada!!

Trabalhei muito tempo como executivo fazendo reengenharia, transformações estruturais, mudanças organizacionais, enfrentando situações críticas e de muito stress. Por que agora me sinto inseguro quando estou em condições muito mais controláveis para tomar decisões do que em outras épocas? A resposta me parece simples: é porque anteriormente, como executivo, eu decidia as coisas com a cabeça, a racionalidade e uma planilha. E agora as minhas decisões vêm do coração e da emoção.

Mr Hyde diz que isso é baboseira. Ele me diz que estou procrastinando, criando justificativas para me lamentar e não tomar as rédeas da minha nova vida. Ele diz que sou um privilegiado, e ele tem razão. Eu sou um privilegiado sim! O meu repertório de vida me tornou mais cascudo, criando uma espécie de ferrugem. Essa ferrugem do tempo, que cobre meu corpo, me protege, engrossa a casca, carrega história e experiência, ao mesmo tempo que resguarda e acolhe o interior. A ferrugem da minha vida preserva a minha alma. Já escrevi sobre isso em um texto curto, que gosto muito, chamado “Sob a ferrugem do meu corpo”.

O fato é que, a cada dia que passa, eu dou mais ouvidos ao Mr Hyde. Ele está falando alto e grosso, está cada vez mais presente no cotidiano do meu dia, me perturbando com questões básicas, mas também com temas complexos, profundos e transformadores.

Ele surge com perguntas racionais como: o que vou fazer com a casa onde vivo, onde vai ser minha nova moradia, qual será o meu novo trabalho e o que vou fazer de interessante na próxima semana.

Mas também vem com perguntas muito perturbadoras, como: qual o propósito da minha nova existência, se estou aberto para novos relacionamentos e possibilidades, se vou viver sozinho para sempre e o que estou fazendo para partir para uma vida realmente nova de verdade.

Mr Hyde está vendo as coisas acontecerem. Ele está vendo que estou saindo da casca nos últimos meses. E não é porque o meu lado racional me manda fazer isso, mas é por necessidade mesmo. Já me sinto no início de uma nova vida, já ando por novos caminhos, já conheço novas pessoas interessantes e vou conhecer mais. Já estou construindo novos relacionamentos, já estou viajando muito e conhecendo novos lugares. No entanto, ainda falta elaborar melhor o meu desejo de trabalhar em coisas diferentes. Mas isso ainda pode esperar numa boa, mesmo com Mr Hyde torcendo o nariz.

A cada dia que passa, intuitivamente, ouço uma voz murmurando no meu ouvido, dizendo: “Tem um mundão todo aí fora esperando por você”. 

Eu já venho fazendo muitas viagens nos últimos meses, resgatando relacionamentos, evoluindo em outros, mas agora sinto que pisei forte no acelerador desse processo e, confesso, estou gostando muito de algumas coisas e possibilidades.

O luto é estranho. Parece fácil determinar quando o luto começa, afinal ele tem início a partir de uma perda. No entanto, o que determina o seu final? Quando podemos considerar o fim do período de luto? Como avaliar? Portanto, para simplificar, o fim do luto pode ser uma decisão pessoal do enlutado. Simples assim. Mr Hyde gosta de simplicidade.

Em minhas conversas pessoais com Mr Hyde, eu disse a ele que o meu luto acabou. Ele parece não acreditar, mas responde que, em vez de luto, eu tenho que falar em renascimento. Pronto! It´s over! Prometi a ele que não vou mais falar de luto. Essa é uma página virada, Mr Hyde! Ele sorri, reconhecendo que realmente já estou em outra. E estou mesmo!

Mr Hyde, sacana, parece ter aliados. Comprei um Jeep 4×4, carro zero, lindão. Dona Fernanda, minha mãe, e meus filhos, foram incentivadores incansáveis para eu vencer a minha própria resistência e jogar pro alto a minha racionalidade de não mudar de carro. Mr Hyde comemorou. Mas não é só isso. Dona Fernanda, que sabe das coisas, diz que vai chover na minha horta. Se você não entendeu, eu vou explicar: vai chover mulheres na minha horta por conta do carro novo. Acho que Mr Hyde e minha mãe estão conversando as escondidas.

Esse meu período sabático parece um combinado. É uma mistura de luto (que não falarei mais!), transformação e renascimento. Já fiz muitas viagens e muitas outras estão a espreita. Em poucos dias, me juntarei a um grupo para fazer uma caminhada de 210 km no interior de Santa Catarina. Depois levo o Jeep para cruzar o Brasil até Goiânia e Pirenópolis, voltando por Minas Gerais, fazendo uma viagem de quase 3 mil quilômetros. Em seguida me junto a um novo grupo para fazer um caminho de 120km pela Estrada Real. É sol na cara, chuva, vento, pessoas, lugares, histórias e experiências.

Nas últimas semanas me sinto o ser mais feliz da Terra. Tudo está mais claro. Estou entendendo a dinâmica da minha nova vida e as possibilidades que tenho em mãos. Estou olhando para frente, somente para frente. O passado está no retrovisor, como um escape para eu dar uma olhadinha. Mas o eu quero mesmo é seguir em frente. Numa metáfora, quero pegar meu Jeep e desbravar as trilhas da vida… com muitas novas trilhas.

E, por trás disso, vivo uma incrível sensação de bem estar, de leveza, de uma vida de múltiplas dimensões, sem apegos, sem medos, com uma enorme vontade de acordar e viver o dia.

A imagem que tenho na minha cabeça é a de um pássaro dentro de uma gaiola. O pássaro sou eu. A gaiola é meu passado. A porta da gaiola se abriu. Eu demorei para tomar coragem e chegar perto da porta aberta. Eu tinha consciência que a liberdade me esperava, ela estava ali na minha frente, mas eu estava paralisado. No entanto, eu fui adiante e finalmente consegui sair da gaiola. Agora estou voando. Ainda estou no início de um voo de possibilidades infinitas. E é isso que me entusiasma, não saber exatamente onde é o ponto de chegada, mas saber que já parti e o melhor de tudo será o caminho, sentir o vento e o calor do sol na minha cara. Já me sinto plenamente liberto e em paz.

Saudade, amor, lembranças, tudo isso está dentro de mim. Ainda penso na Regina todos os dias, mas é uma lembrança boa, saudável, de uma história fantástica, que não volta mais, porém está gravada no meu DNA.

Como profissional de tecnologia que sou, posso dizer que a minha vida deu um reset completo. Alguém divino apertou o botão de desliga do notebook da minha vida… um novo software foi carregado nele, e eu pressionei o botão de ligar. O notebook ligou e apareceu uma tela diferente. É cheia de novos ícones. É a minha nova vida esperando que eu faça algo por ela. E estou fazendo. Estou brincando com os novos ícones e aplicativos da minha vida. Obrigado Mr Hyde.