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Quanto tempo falta? Uma conversa sobre finitude e propósito

  • há 2 dias
  • 8 min de leitura

Atualizado: há 14 horas

Faço Pilates continuamente nos últimos 4 anos. Não sei muito bem o que está acontecendo, mas neste ano de 2026 os exercícios no Pilates têm sido mais chatos, parece que meu corpo não está de bem com a prática. Acho que estou menos flexível e menos disposto com a atividade. Por outro lado, caminho diariamente acima de 10 km de caminhada em ritmo acelerado pela cidade... todos os dias!!


Mauro Segura praticando exercício de Pilates de ponta-cabeça, sorrindo para a câmera.
Lutando contra a gravidade no Pilates - foto de Mauro Segura

É muito raro não caminhar. Esta atividade eu gosto muito e me faz bem. A verdade é que sinto o meu corpo mudando por conta da idade e penso nisso recorrentemente. Estou ficando velho! Aos 66 anos, alguns pensamentos distantes parecem estar se aproximando.



Uma conversa sobre finitude e propósito no meio do caminho

 

Distraidamente me peguei pensando na finitude. "Como será quando chegar o dia? Como vai ser?" 


Um dos lobos habitam a minha mente me deu um chega pra lá: “por que está pensando nisso agora? Não é bom pensar nisso porque atrai”. Um outro lobo retrucou: “que bobeira está dizendo, pensar nisso é bom, é ter consciência, amplia, expande.”

 

Nos últimos anos, refletir sobre finitude e propósito de vida entrou no meu cardápio de investigações e questões existenciais. Não como algo ruim ou prejudicial para o meu bem-estar e entusiasmo com a vida, mas sim como uma expansão do meu viver e do meu entendimento do universo.


Na verdade, confesso, tudo que estudei e continuo estudando e tenho hoje como crenças e compreensão existencial, transformaram a minha existência em algo mais leve, mágico, dando sentido e significado para tudo que já vivi, vivo e ainda vou viver. Eu até ressignifiquei o meu passado (já escrevi sobre isso no meu blog). Enfim, nesse caldeirão de aprendizados e novas perspectivas, a finitude física se transformou em algo interessante.

                                            

Como o universo atrai o que a gente pensa (olha o lobo aí de novo!), o google e youtube, dias atrás, com ouvidos bem atentos ao que falo e penso, colocaram na minha frente um vídeo que me impactou. É um vídeo de Moacyr Franco, artista multifacetado que nem todos conhecem ou lembram. O vídeo começa com um anúncio informando que Moacyr cantará a música “Se eu não puder te esquecer”.

 

Surge ele no centro do palco e um músico, mais atrás, com um violão em mãos. O violão toca e Moacyr começa a cantar. Mas logo na primeira frase ele interrompe e diz que não é aquela música. Parece confuso. Aí ele começa de novo, com outra música. Canta duas frases e interrompe de novo. Diz que também não era aquela música. Pensa, e em segundos exclama que já sabe a música. Insinua que vai cantar, mas logo interrompe pela terceira vez e fala:  

“Eu queria saber quanto tempo falta”.

E repete lentamente: “Quanto tempo falta?” E continua: “Isso me passou agora pela cabeça, preocupação de todo mundo. Quanto tempo falta? Imagina para mim que tenho 90.”

 

Moacyr se mostrar reflexivo. O violão continua tocando emoldurando um fundo musical para seus devaneios - “Mas como estamos no meio da música aqui, no meio do espetáculo, o que eu quero saber é: que horas é o encerramento? Que dia?”

 

Faz uma pequena pausa para permitiu que todos pensem. Então segue:“É horrível você estar no palco atuando sem ter noção do encerramento. Tomara que seja bonito. Hoje eu fico pensando assim: a única certeza que eu quero, certeza mesmo, é que eu vou amanhecer. Quantas mil vezes eu amanheci? Sei lá!”

 

E conclui a conversa com a frase: “Hoje estive pensando que o tempo não passa. O tempo para... e espera a gente passar”. 

 

Então, ele começa a cantar música, que nem é tão importante diante daquela conversa. Agora curta você mesmo. O vídeo está a seguir.


 


Assisti este vídeo do Moacyr Franco várias vezes. A pergunta dele é tão boa, que eu a coloquei como título deste artigo. No entanto, tenho outra pergunta muito boa:

“O que vem depois?”

 

 

Aprendendo a chamar de passagem

 

A minha relação com a morte mudou muito a partir da jornada da Regina. Ela partiu em 2020 depois de uma história de câncer de 3 anos, repleta de luz, amor e compaixão. Em 2021, foi a vez do meu pai partir, consequência da covid. Em 2025, um amigo muito querido, Fred, nos deixou. E agora, no primeiro semestre de 2026, a minha tia Creusa querida, partiu. Tal sequência de experiências abriram várias portas dentro de mim e muitas coisas mudaram dentro de minha cabeça.

 

A vida, de alguma forma, nos prepara para a morte. Eu passei a não gostar muito da palavra “morte”, hoje escolho usar a palavra “passagem” e suas derivadas. A razão é que não acredito na morte como ponto final de tudo. A vida não termina em nossa passagem, apenas mudamos de fase, como se estivéssemos em um videogame universal. De qualquer forma, ainda tenho o interesse em saber o que acontece “naquela hora”.

 

Epicuro, filósofo, diz que não devemos ter medo da morte:

“Quando nós estamos, a morte não está. E quando a morte está, nós é que não estamos. E, também, não estará a nossa capacidade de perceber a nossa própria morte, o que a torna algo que nunca a veremos”.

 


Uma viagem pelo fim

 

“De repente o seu coração para de bater. Sem o sangue circulando, todos os outros sistemas de seu corpo entram em colapso. Seu cérebro, sem oxigênio, se desliga, enquanto um misto de confusão e alucinação te afastam de toda a dor naquele último segundo. E, então, tudo se apaga. Você morre. O que vem a seguir?”

 

Essa é a descrição da morte no episódio “A Morte”, narrado por Christian Gurtner, no excepcional podcast “Escriba Café”. Juro que esse episódio me perturbou porque tentei me colocar naquela narração. Era eu que estava ali naquele storytelling, com coração e cérebro entrando em colapso.

 

Entretanto, o episódio me capturou por outros motivos. O primeiro é a viagem feita pelas crenças antigas sobre o fim da vida. Começa no Egito, passa pela Grécia, pelos nórdicos... é muuuuuito interessante. E apresenta uma clara conclusão: em todas as culturas a morte era um espelho dos valores de cada sociedade. Além da história, o episódio incorpora visões filosóficas que se conectam muito bem às crenças e rituais do passado.

 

O segundo motivo é a mensagem final: em vez de transformar a morte em tabu e fugir dela, devemos encará-la como a força que dá sentido à vida. "Aceitar o fim não é derrota, é libertação, é o que nos permite viver com autenticidade, intensidade e propósito", pois, como conclui o episódio, "o que fazemos em vida ecoa na eternidade".

 


O alpinista que existe em mim

 

Foi nesse emaranhado de buscas sobre finitude e propósito que apareceu, na minha timeline, um vídeo da Professora Lúcia Helena Galvão. Na aula em vídeo, que já passou de 2 milhões de views, ela fala sobre “Vontade” e usou uma metáfora que me caiu bem: a vida como a escalada de um alpinista. Essa metáfora fez muito sentido para mim.

 

A imagem é simples, talvez um pouco clichê, mas poderosa. Vivemos a vida inteira subindo a montanha, mas a maioria de nós nunca finca a corda com firmeza. Queremos chegar rápido e fortes, mas na maioria das vezes não temos clareza para onde estamos indo. Subimos por subir... porque temos que subir.  Vivemos por viver... porque temos que viver.  

 

O alpinista de verdade, antes de dar o primeiro passo, joga a corda lá em cima. Ele crava a corda com toda a certeza do mundo. Não pode haver erro, porque se a corda não estiver bem fixada, no local certo, todo o esforço da escalada pode terminar em queda. É assim que a gente deveria viver: fincar a corda no topo da montanha que a gente quer escalar. Só depois disso a gente começa a subir. Na descrição da subida, a Professora usa duas palavras: perseverança e constância.

 

Perseverança é o fazer contínuo... é o fazer sempre, sem pressa e sem pausa. Lembrei de mim: a perseverança é o que me faz levantar todos os dias e continuar subindo, mesmo que o Pilates esteja chato, mesmo que o corpo reclame.


Mauro Segura fazendo uma pausa em meio às rochas e vegetação durante subida na montanha.
Perseverança na travessia: continuar subindo dia a dia, mesmo quando o caminho exige mais do corpo. Rumo ao Monte Roraima em set/23 - foto de Mauro Segura

 

Constância é bem mais sutil: é lembrar sempre por que estamos fazendo aquilo. Se a gente não lembra ou não tem clareza do motivo, então viramos um robô. Ela cita o filme Tempos Modernos de Chaplin, onde o personagem passa o dia apertando parafusos, sempre mecanicamente, já com a consciência perdida do porquê ele estar fazendo a aquilo.

 

A Professora diz que “força de vontade” não tem nada a ver com esforço. O esforçado se arrasta, sofre, resiste, parece estar sendo obrigado. O motivado, por outro lado, tem entusiasmo (vem do grego en-theos, "ter Deus dentro de si"), não precisa de explosões de energia: sua força é lúcida e duradoura, como a do alpinista que, com ritmo constante, traciona a corda e avança. Penso no Pilates de novo.

 

E, finalmente, ele chega ao tema principal: a Vontade.

 

A Vontade verdadeira não é explosiva como a paixão ou a raiva. É calma, consciente e perseverante, o oposto da força descontrolada que se gasta em segundos. Quando canalizamos nossa energia em uma direção consciente, nossa capacidade de realização se multiplica.

 

No final da palestra, ela diz: "Onde há uma Vontade, há um caminho", o que significa que, se você está determinado, se fincou a corda e está subindo com ritmo, as adversidades não te param. Pelo contrário, elas se tornam desafios, e a vida vai te dando as ferramentas para superá-los. Penso nas adversidades e perdas que vivi.


 



A única morte que importa


À primeira vista, o podcast do Escriba Café e a aula da Profa. Lúcia Helena tratam de temas bem diferentes. No entanto, para mim, eles se conectam profundamente, me levando a uma conclusão que talvez seja o ponto central de tudo isso.

 

Eu levei 60 anos para descobrir onde queria fincar a minha corda. Passei décadas subindo a montanha em uma direção não tão clara, pra lá e pra cá, experimentando caminhos diferentes, porém em ritmo sempre forte de subida. Olhando para trás, eu acho que nunca cravei a minha corda com firmeza. Hoje, aos 66, eu acho que finalmente finquei.

 

Agora caminho com uma bússola dentro de mim. Estou subindo. De forma tranquila, sem pressa, mas consistente, presente e atento. Vivo a fase mais maravilhosa da minha vida.


Sombra humana projetada em um paredão de rocha sob a luz do sol, simbolizando a passagem do tempo.
Minha sombra na base do Monte Roraima: o tempo não passa por nós, ele espera a gente passar - foto de Mauro Segura

 

Do alto da montanha, olho para baixo e vejo tudo de cima. Faço uma descoberta. Tudo parece mais bonito, mais sereno... e verdadeiramente é! A vida, os fatos, os acontecimentos, tudo que aconteceu comigo nessa existência se revela diferente, encaixando-se perfeitamente como em um quebra-cabeças da vida. Cada coisa que vivi foi o melhor que poderia acontecer para o meu crescimento.


Tudo me ajuda a subir, me eleva e me amplia a visão. Olho para cima e vejo uma subida íngreme ainda pela frente, porém a montanha não me assusta, a corda está lançada e está bem presa, tenho clareza do caminho a seguir, com perseverança e constância.

 

Volto a pensar na pergunta “quanto tempo falta?”, mas ela se transforma em outra: "o que estou fazendo com o tempo que tenho?" No fim das contas, a única morte que realmente importa é a morte em vida... a vida vivida sem propósito, sem direção e sem vontade. Essa sim é a verdadeira morte.



Leituras para a jornada

 

Compartilho alguns livros maravilhosos que falam sobre “aquela hora”. Já li todos, alguns mais de uma vez. Recomendo todos, sem exceção.

  • Sobre a Morte e o Morrer - de Elisabeth Kübler-Ross

  • A morte é um dia que vale a pena viver – de Ana Cláudia Quintana Arantes

  • Em busca de sentido - de Viktor Frankl

  • A Bailarina de Auschwitz – de Edith Eva Eger

  • Os cinco maiores arrependimentos antes de morrer - de Bronnie Ware

  • A morte segundo o espiritismo - de Alexandre Caldini



Mauro Segura preparado para subir o Monte Roraima em uma paisagem deslumbrante
Preparado para subir o Monte Roraima, na maior aventura da minha vida - Foto de Mauro Segura

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