O paciente que aprendeu a cair - um conto terapêutico
- 1 de mai.
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Atualizado: 6 de mai.

Do luto à liberdade: a história de um homem que aprendeu a cair, a renascer e a não agradar ninguém
Dr. (nome não importa) recebeu um envelope em abril de 2020. Dentro, 87 artigos. Fora, um homem tentando aprender a cair, e a levantar.
Sessão Zero: O envelope
Minha sala fica no fundo da casa, onde a luz da tarde entra sem pressa. Tenho duas poltronas cor de terra, uma planta que insiste em florescer mesmo com pouca água e uma estante onde guardo cadernos antigos, não os meus, mas os que alguns pacientes me deixaram ao longo dos anos. Gosto de pensar que cada caderno é uma vida que passou por aqui.
No dia 4 de abril de 2020, recebi um envelope. Não tinha remetente, apenas um endereço digital impresso: www.maurosegura.com.br. Dentro, um link e uma carta curta:
"Dr. Não sei se o senhor existe. Não sei se alguém vai ler isso. Mas preciso falar. Hoje, pulei na piscina."
Assinou como "F", talvez de "Fênix", o pseudônimo que ele usaria nas sessões seguintes.
Naquela noite, li o primeiro artigo: "Em busca de um propósito". Uma mulher chamada Regina, um câncer, uma partida, há pouco mais de um mês, uma promessa. Um homem de 60 anos que acabara de perder o chão. Li duas vezes.
Ele pedira demissão do emprego para cuidar dela. Seus filhos, já adultos, haviam seguido suas próprias vidas. Ele estava, pela primeira vez em décadas, completamente livre. O que fazer com a vida? Desapego, mudança, como nomear? Tempos depois entenderia que aquele momento era o início de tudo.
Anotei no meu caderno:
"Paciente fala em 'pular na piscina'. Metáfora para o medo do desconhecido. Mas não é só medo. Há algo mais: ele já pulou. O corpo já está no ar. A mente é que ainda não percebeu."
Eu não sabia que, naquela noite, aquele envelope conteria não um, mas oitenta e sete artigos, equivaleria a oitenta e sete sessões, espalhadas por seis anos. Eu também não sabia que aquele paciente me ensinaria tanto sobre cair e levantar.

Sessão 1 a 5: A caverna
F. chegou ao meu consultório - virtual, porque ele nunca me procurou no mundo físico - carregando uma palavra: luto. Nos primeiros meses, era só isso. Ele falava de uma caverna, de pedras, de um jardim abandonado. Eu ouvia. Anotava.
Na segunda sessão, que li como "Os 3 primeiros meses sem Ela", ele escreveu:
"Estou aprendendo a viver sem pressa."
Anotei no meu caderno:
"Paciente confunde ausência de pressa com paralisia. Ele não está sem pressa, está congelado. O luto não é apenas tristeza, é uma suspensão do tempo. Ele precisa aprender a habitar essa suspensão, não fugir dela."
Mas ele não fugia. Isso me surpreendeu. A maioria dos pacientes, nos primeiros meses de perda, busca distração, anestesia, qualquer coisa que preencha o vazio. F. não. Ele entrava na caverna de propósito, acendia uma vaga luz e ficava ali, sentado, sentindo.
Na quinta sessão, "Sobre fazer 60 anos", ele escreveu: "
“Quero falar muitos foda-se, mas sempre de forma ética, coerente e educada."
Ri sozinho na minha sala. Ele já tinha senso de humor. Isso era bom. O humor é um termômetro da resiliência.
Anotação:
"Paciente inicia processo de aceitação da idade. Não como resignação, mas como apropriação. Ele não está 'sofrendo' os 60, está 'decidindo' os 60. Diferença fundamental!"

Sessão 6 a 10: A doçura
No meio de 2020, algo mudou. F. começou a escrever sobre beija-flores... ele falava sobre um caderno amarelo que ele chamava de "cartas para Regina". Eu percebi que ele não estava mais descrevendo a dor, estava conversando com ela.
Na sessão "Quando o luto pode ser doce", ele escreveu:
"Pise na grama."
Foi uma virada. Ele não estava mais sentado na caverna, estava pisando em lugares proibidos, transgredindo as próprias regras. O luto, para ele, não era mais uma doença a ser curada, era um território a ser explorado.
Anotação:
"Paciente descobre que a dor pode coexistir com a doçura. Grande avanço. Mas cuidado: a doçura pode ser uma armadilha. Ele pode se apegar à dor para não perder a conexão com Regina. Preciso observar se ele conseguirá, mais adiante, deixar ir."
Ele não deixou ir. Pelo menos não ainda. E talvez isso estivesse certo. Talvez o luto não precise de despedida, mas de ressignificação.

Sessão 11 a 15: O vício
Aí veio a fase que eu chamo, nos meus registros, de "O perigo da saudade".
F. escreveu sobre ouvir músicas bregas no carro e chorar. Sobre seguir uma mulher no condomínio porque ela parecia Regina. Sobre ter medo de esquecer. Sobre sentir que a saudade era um vício e que ele não queria se curar.
Na sessão "Quando a saudade se transforma em vício", ele confessou:
"Sou um dependente."
Anotação:
"Paciente identifica o problema. Isso é crucial. Ele sabe que está viciado na dor. Mas saber não é suficiente. Ele precisa escolher. O vício só se mantém enquanto ele alimenta o lobo errado."
Na sessão seguinte, "Eu e Mr. Hyde", ele apresentou um novo personagem: um lobo racional, pragmático, que o chamava de "vagabundo" e o pressionava a "voltar ao trabalho". Eu me preocupei. Trocar um vício por outro não é cura, é migração.
Anotação:
"Paciente oscila entre dois extremos: a nostalgia paralisante e a produtividade compulsiva. Nenhum dos dois é equilíbrio. Ele precisa de um terceiro caminho."

Sessão 16 a 20: O caminho
O terceiro caminho apareceu, surpreendentemente, em forma de mulheres. Na sessão "Mulheres no caminho", F. descreveu uma caminhada de 220 km com doze mulheres em Santa Catarina. Ele era o único homem. Ele as descreveu como "passarinhos livres que não cabem mais em nenhuma gaiola".
Anotação:
"Paciente se permite ser guiado. Não por terapeutas ou livros, mas por experiências vivas. Ele está aprendendo com o exemplo. A caminhada é uma metáfora para a vida: ele não controla o terreno, mas escolhe onde pisar."
Depois da caminhada, ele escreveu "Transformar e Renascer". E anunciou:
"Estou apaixonado."
Valéria. Um novo amor. Eu sorri na minha sala. Mas também me preocupei.
Anotação:
"Paciente encontra novo amor. Isso é maravilhoso. Mas preciso observar: ele está se apaixonando por Valéria ou pela ideia de ser resgatado? A diferença é sutil, mas crucial."
Passei semanas com essa pergunta na cabeça. Seria Valéria um trampolim para o resgate de um homem que não sabia viver sozinho? Ou seria amor verdadeiro, daqueles que transcendem a lógica? Eu não tinha resposta. Apenas observava.
O tempo passou. Os artigos seguintes mostraram uma relação que amadurecia. Havia viagens juntos, desafios compartilhados, uma vida sendo construída a quatro mãos. Não era mais um "namoro". Era uma parceria. Eles passaram a viver juntos, primeiro em Goiânia, depois em novas descobertas.
Foi só mais tarde. anos depois, que F. escreveu sobre o casamento. A cerimônia em Goiânia. As músicas escolhidas a dedo: "Clamor da Terra", "Can't Help Falling in Love", "Façamos (Vamos amar)". Ele disse, com uma simplicidade que me desarmou: "Atravessei o portal." Ali entendi que não era resgate. Era escolha. Ele não estava sendo salvo, estava decidindo amar de novo, com a consciência de quem já havia perdido e, por isso, sabia o valor de cada instante. O casamento com Valéria não foi um marco de superação do luto, foi um marco de expansão da vida.
O casamento
F. escreveu sobre a aliança, sobre os votos que ele mesmo redigiu:
"Nos dias de mar calmo, eu serei o sol à sua frente. Nos dias de tempestade, eu serei o seu porto seguro."
Li e reli. Havia ali um homem que não estava fugindo do passado, mas integrando-o ao presente. Regina não foi apagada, foi honrada. Valéria não foi uma substituta, foi uma nova página no mesmo livro. Aquilo, para mim, foi a prova de que ele havia aprendido a lição mais difícil: o amor não se substitui, se expande.

Sessão 21 a 30: A filosofia dos lobos
A fase mais longa. A mais densa.
F. descobriu a lenda dos dois lobos e fez dela sua cartilha. Ele escreveu sobre "O dilema dos dois lobos" pelo menos quatro vezes, em diferentes contextos. Eu me perguntava se ele estava usando a metáfora como muleta ou como ferramenta.
Anotação:
"Paciente se apega à metáfora dos lobos. É poderosa, mas risco: ele pode simplificar demais a complexidade humana. Nem tudo é escolha entre lobo bom e lobo mau. Às vezes, os lobos são muitos, e nenhum é completamente bom ou mau."
Mas ele foi além. Na sessão "Os lobos dentro de mim", ele apresentou uma versão mais sofisticada:
"Não existem lobos vencedores. Ambos ganham. O segredo é o equilíbrio."
Aí, sim. Ele havia amadurecido a metáfora.
Anotação:
"Paciente evolui de dualismo para complexidade. Isso é crescimento real. Ele não está mais tentando 'matar' o lobo mau, está aprendendo a conviver com ele. Isso é sabedoria."

Sessão 31 a 40: A queda e a subida
Antes do pavor, houve a luz. Na primeira consagração do Santo Daime, F. viveu algo que ele mesmo descreveu como "encontro com o divino". Seu corpo deixou de existir. Ele era apenas espírito, luz, paz. Saiu daquela experiência com uma certeza: o mundo material é efêmero, a alma é eterna. Aquela experiência o marcou profundamente e o fez acreditar que a espiritualidade era um caminho legítimo de cura. Foi por causa daquela luz que ele decidiu, tempos depois, retornar para uma segunda consagração. Ele não sabia, então, que a luz e a sombra eram duas faces da mesma moeda.
A segunda consagração do Santo Daime foi, para mim, a sessão mais difícil de ler.
F. descreveu pavor, tremedeira, sensação de morte iminente. Ele prometeu a si mesmo que nunca mais voltaria. Ele escreveu:
"Prometo a mim mesmo que nunca mais me consagrarei."
Anotação:
"Paciente vive experiência traumática. Isso pode ser um retrocesso ou um portal. Depende do que ele fará com a memória do pavor. Ele pode se fechar ou se abrir. Vou aguardar."
Aguardei. Nas sessões seguintes, ele não se fechou. Ele escreveu sobre o beija-flor que apareceu na janela do 16º andar. Sobre a sincronicidade. Ele transformou o pavor em lição.
Anotação:
"Paciente integra a sombra. Isso é raro. Muitos pacientes, após experiências traumáticas, recuam para a segurança do conhecido. Ele não. Ele avança. Ele pergunta: 'O que isso me ensinou?' Em vez de 'Por que isso aconteceu comigo?' Diferença fundamental entre vítima e aprendiz."

Sessão 41 a 60: A reinvenção profissional
F. deixou o mundo corporativo. Escreveu sobre "sair de cena", sobre "vestir o manto da invisibilidade", sobre a dificuldade de desagradar os outros. Ele falou sobre amigos que cancelaram a assinatura do blog, sobre o ego que murchou, sobre a pergunta de Montaigne:
"A quem você está tentando agradar?"
Anotação:
"Paciente enfrenta o monstro mais difícil: o próprio ego. Ele não está apenas mudando de emprego, está mudando de identidade. Isso é uma morte simbólica. E toda morte dói. Ele está sentindo a dor de não ser mais 'quem era'. Isso é saudável."
Na sessão "Liberdade do desinteresse", ele escreveu:
"Eu sou o mestre do meu destino. Eu sou o capitão da minha alma."
Anotação:
"Paciente cita 'Invictus'. Isso pode ser empoderamento ou arrogância. A diferença está na humildade. Ele ainda precisa aprender que ser capitão não significa controlar o mar; significa escolher como navegar nas tempestades."

Sessão 61 a 80: A aceitação
As últimas sessões foram mais calmas. F. escreveu sobre envelhecer, sobre a noite que permite ver os vagalumes, sobre a arte de perder tempo com a mãe idosa, sobre o Ichigo-Ichie, o momento único que nunca se repete.
Ele já não precisava mais provar nada. Nem para mim, nem para si mesmo.
Na sessão "Idade da alma", ele escreveu:
"O corpo terá seus limites, a carteira de identidade terá seus números, mas a alma, essa energia que sou eu, só pede para vibrar."
Anotação final:
"Paciente integra corpo e alma. Não nega o envelhecimento, mas também não se rende a ele. Escolhe a frequência. Isso é maturidade."
Essa fase foi o desdobramento das fases anteriores, que foram fases recheadas de experiências. F. subiu o Monte Roraima, descobrindo que o impossível se divide em pedaços possíveis. Viveu um retiro Vipassana, em silêncio absoluto por dez dias, transformador, escutando os ecos da própria mente. Aprendeu com a graça e com o pavor nas consagrações do Santo Daime, já citadas anteriormente. Caminhou sozinho por centenas de quilômetros no cerrado, com uma mochila nas costas, o sol na nuca, integrado à natureza.
F. não fazia isso por coragem, fazia por intuição, como se algo dentro dele já soubesse que a única direção que realmente transforma é aquela que nos tira do lugar. Cada passo, cada desafio, cada momento de entrega ao desconhecido foi um tijolo na construção de uma nova frequência, mais alta, mais leve, mais perto do que ele sempre foi, mas nunca soube.
Desapego e liberdade
O desapego, que já vinha desde os primeiros anos da jornada - quando ele deixou a casa do Recreio, quando doou móveis, livros, troféus, quando aprendeu a desfazer-se do peso - agora se consolidava como filosofia de vida.
Descobriu que a verdadeira liberdade não está na conta bancária, mas no domínio da própria agenda. "Ser dono da própria agenda", repetia, "é a maior das prosperidades". O minimalismo não foi uma imposição, foi uma consequência natural de uma vida que, finalmente, sabia o que era suficiente.

Sessão final: A capelinha
Na última sessão que recebi, "Ichigo-Ichie", F. descreveu um momento no Caminho da Fé. Uma capelinha branca no alto de uma serra. Ele estava sozinho, cansado, mas pleno. Ele escreveu:
"Impossível descrever a sensação. Era uma mistura de plenitude, paz e felicidade. Naquele momento eu não precisava de mais nada. Lembro de desejar que aquela sensação nunca acabasse. Como conseguir isso? Obviamente que seria impossível."
Ele sabia que o momento não duraria. E, mesmo assim, ele ficou lá, sentado no banco amarelo, por mais de uma hora. Sem pressa. Sem agenda. Apenas presente.
Fechei o caderno. Olhei para a planta que insiste em florescer com pouca água. Pensei em F., na Fênix que ele se tornou.
Ele nunca foi meu paciente. Ele nunca entrou na minha sala. Mas eu o acompanhei por seis anos, artigo por artigo, sessão por sessão. E, no final, fui eu que aprendi com ele.
Aprendi que o luto não se supera, se habita. Que a dor não se esquece, se ressignifica. Que o amor não se substitui, se integra. Que a coragem não é ausência de medo, é ação apesar dele.
F. não é um herói. Ele é humano. Ele recaiu, duvidou, sentiu vontade de desistir. Mas, cada vez que caía, ele se perguntava: "O que isso pode me ensinar?"
E essa pergunta, mais do que qualquer resposta, foi o que o salvou.

A alta, o paciente voa
Não houve uma última sessão formal. Não houve despedida dramática. Houve, isso sim, um silêncio que se alongou. Os artigos continuaram, mas o tom havia mudado. Já não havia angústia. Havia, em seu lugar, uma calma serena, uma espécie de paz que não precisava mais ser anunciada. F. não precisava mais de mim. Talvez nunca tenha precisado. Ele só precisava de um espelho. E eu fui, ainda que imaginário, esse espelho.
Hoje, se me perguntam sobre ele, digo: está voando. Não no sentido de que não há mais desafios. Isso seria mentira. A vida continua sendo uma estrada sinuosa, com subidas íngremes e descidas traiçoeiras. Mas ele aprendeu a voar. Não como um pássaro que foge do chão, mas como alguém que descobriu que o horizonte não é um limite, e sim um convite. Suas asas são suas escolhas. Seu farol é Valéria. Seu sol é a gratidão. Seu horizonte é infinito porque ele aprendeu que o destino não é um ponto de chegada, mas o próprio caminhar.
Eu, Dr. (nome não importa), o libero. Não porque ele esteja curado, essa palavra nunca fez sentido para mim, mas porque ele já não precisa mais de um terapeuta. Ele se tornou, ele mesmo, seu próprio terapeuta. E isso, convenhamos, é a mais alta das altas.
Nota do Terapeuta: Sua própria caverna
Se você, leitor, está atravessando sua própria caverna, seu próprio luto, sua própria reinvenção, lembre-se de F.
Ele não tinha respostas. Ele tinha perguntas. E a coragem de vivê-las.
"O que estou vivendo agora não se repetirá nunca mais."
Isso não é uma ameaça. É um convite. Assine o blog. Ou não. Mas, por favor, viva.
Assinado: Dr. (o nome não importa)
Sala 7, fundo do apartamento, onde a luz da tarde entra sem pressa.
Nota do autor:
Este texto foi escrito por uma inteligência artificial (IA)- especificamente, o DeepSeek - sob pedido e a orientação de Mauro Segura, autor do blog. As imagens foram construídas por IA - Copilot. A narrativa é uma construção ficcional baseada na leitura e análise de 87 artigos publicados por Mauro entre abril de 2020 e abril de 2026, todos publicados nesse blog. O terapeuta, a sala, as sessões e as anotações são recursos literários criados para dramatizar a jornada real do autor. Nenhuma sessão terapêutica real ocorreu. Mas, de certa forma, cada artigo foi uma sessão, consigo mesmo.




Adorei a ideia e o resultado!
Obrigada por compartilhar sua riqueza: sensações, sentimentos, vivências.
Excelente. Obrigado por compartilhar e nos inspirar.
Excelente. Abraços
Mauro, obrigado por dividir essas histórias com tanta honestidade. Seus textos não são só leitura: eles continuam com a gente depois, provocando perguntas e reflexões sobre a nossa própria jornada. É impossível não olhar para dentro ao acompanhar o que você compartilha. Tem muita força, sensibilidade e generosidade nisso.