Um dia histórico: A mudança de casa da minha mãe aos 94 anos
Imagine uma mulher com 94 anos de idade, tendo vivido mais de 50 anos na mesma casa, sabendo de cada detalhe daquele lugar, como se fosse um organismo vivo... aquele azulejo lascado, a porta que só fecha com um jeitinho especial e a plantinha que cresceu e virou quase árvore. Ali ela viveu a maior parte da vida, onde sua família cresceu e prosperou, as festas de Natal com todo mundo junto, a criançada, o marido se vestindo de Papai Noel, conquistas e orgulho... tempos depois a família se dispersando, filhos e netos espalhados pelo mundo, as festas se reduzindo e se transformando em fotografias desbotadas em álbuns de capa dura encardidos, lembranças romantizadas com fatos imaginados de tempos passados, o ocaso da idade, as dores lombares, o marido que partiu por conta da covid, o duro aprendizado de viver sozinha, a casa silenciosa, a briga diária com o celular que abaixa o volume “sem ela mexer”, a reclamação de que ninguém fala mais no telefone e só quer saber de mensagens, a casa que parece grande demais e difícil de cuidar, as folhas das árvores que teimam em cair todos os dias no quintal da frente, gavetas que não abrem mais, que rangem, igual ao seu corpo, menos flexível e enrijecido. Histórias de vida vivida dentro daquelas paredes. Até que alguém chega para ela e diz: “vamos mudar de casa?? Vamos para um novo capítulo de vida”.
Esta é a história de minha mãe!!
Minha mãe ficou viúva em 2021. Até hoje ela não aceitou muito bem essa decisão de Deus, mas a cada ano que passa parece que entende um pouco melhor o seu contexto atual de vida. O que realmente não é aceito, de forma alguma, é a idade, as limitações naturais por conta da velhice e a falta de vigor físico. A cada dificuldade ou obstáculo, ela reclama com os céus... e com quem está do lado. Ninguém passa ileso.
Não se sabe muito bem o ano exato em que meus pais foram morar naquela casa. Certamente foi na década de 70, mas dependendo do dia e da hora, a resposta da minha mãe muda. Ela conta que aquele terreno e casa no Andaraí, no Rio de Janeiro, foram comprados pelo pai dela (meu avô) na década de 60. A casa era de pau a pique, e se transformou na casa que é hoje pelo esforço do meu avô, transformando o casebre em uma casa de paredes muito grossas, sem pilares, em uma base estrutural impensável, porém firme como uma rocha.

A decisão de voltar às origens e preparar um novo lar
Desde que meu pai faleceu que eu venho tentando convencer a minha mãe a se mudar de casa. Nos dois primeiros anos ela reagia negativamente a qualquer ideia, até que eu parei de insistir, já que as conversas nunca acabavam bem. Mas a proposta sempre ficou na minha cabeça e alternativas eram analisadas. Até que no final do ano passado surgiu uma situação especial... daquelas que só passam uma vez na vida, sabe? Surgiu um apartamento sendo vendido em um antigo condomínio residencial que moramos quando eu era criança/adolescente, ou seja, está dentro da memória afetiva da família, um lugar conhecido e que não soaria como algo estranho e hostil. Era como se ela estivesse voltando para um lugar querido e de boas lembranças.
O apartamento era no primeiro andar, o que é maravilhoso para uma pessoa de idade, porém estava detonado, muito destruído mesmo. O condomínio é simples e antigo, portanto a maioria dos apartamentos tem as marcas do tempo. Eu e meu irmão decidimos comprá-lo e refazê-lo completamente. Conseguimos uma boa negociação e aproveitamos um momento de hesitação da minha mãe, cujo coração momentaneamente aprovou a ideia da mudança, e fechamos o negócio.
Foram mais de 6 meses de obras, tudo planejado detalhadamente, tudo novo... mas novo mesmo, até a infraestrutura de elétrica, água e esgoto. Ou seja, tudo novo... dentro e fora das paredes. Apenas duas exceções: as janelas e o piso da sala e quartos. Todo o resto está novinho em folha e... lindo!! A cozinha e o banheiro estão um show, modernos, super funcionais, com luminárias especiais, armários embutidos e cerâmica clara trazendo muita luminosidade para os ambientes. Não preciso dizer o quanto investimos em planejamento, tempo, conversas, estudos de opções e idas e vindas nas decisões. Foi tudo feito com muito carinho.
O tempo passou, meses se foram, e marcamos o dia da mudança: 21 de setembro de 2026!! Vim de carro de Goiânia para o Rio dias antes para ajudar na preparação da mudança, que seria um desafio por vários motivos, especialmente pelo processo de desapego necessário, quase impossível, para uma pessoa agarrada a tantas lembranças e memórias, vivendo de um passado que não volta mais.

O desafio do desapego: Cada objeto conta uma história
Dois dias antes da mudança – dia 19/09/2026
Mais de 20 panelas... mais de 20 pirex... mais de 100 copos, taças de todos os tipos, tulipas, copinhos de cachaça... como fazer?
Encontro uma chave de fenda grande, com uma bola grande de madeira na ponta, onde se faz a pegada. Falo para minha mãe que é coisa velha, digo que não vale a pena levar. Minha mãe reage, diz que eu quero jogar tudo fora e que estou ansioso. Já estamos há horas discutindo sobre o que levar e não levar. A relação está estremecida e fechamos a cara.
Uma hora depois, ela está no canto do quarto falando sozinha, resmungando que aquela chave de fenda foi do pai dela, que era uma ferramenta de trabalho... aí entendo que existe uma relação afetiva com aquele objeto. Por que ela não falou comigo? Penso na pergunta, ao mesmo tempo que considero que faltou sensibilidade de minha parte... em vez de propor que ela se desfizesse do objeto, eu deveria ter perguntado sobre ele para dar oportunidade dela me contar.
Logo depois, me deparo com uma calçadeira longa de metal, comprada pelo meu pai. O desapego é um processo que não envolve apenas sobre guardar ou não guardar coisas materiais, mas também sobre decidir como lidar com lembranças físicas que pessoas queridas deixaram para trás.
Outros objetos vão aparecendo... coisas que eu nunca levaria... mas cada coisa tem uma história, tem uma importância, tem uma lembrança... e o número de caixas empacotadas vai crescendo além do que eu imaginava.

Um dia antes da mudança – dia 20/09/2026
Com muitos álbuns de fotografias nas mãos, pergunto onde guardar. Ela responde dizendo que “pode jogar tudo fora”, mas fala da boca para fora. Ela se recusa a ver fotos, reage mal como uma forma de externar sua insatisfação por não mais reviver um passado... que não volta mais.
Vou abrindo os armários e perguntando para ela... um monte de coisas ela fala que vai levar em mãos para “o pessoal da mudança não quebrar”, mas o volume vai se tornando impossível.
Duas batedeiras, três espremedores de fruta, três cafeteiras...
Ela está saindo de uma casa de rua para um apartamento em condomínio. Está perdendo dois quintais, a área de serviço ao ar livre e com sol, e uma infinidade de plantas. Mas vai ganhar conforto, muita mais segurança, tudo novinho e menos trabalho para manutenção do lar, afinal, uma casa exige muito mais trabalho doméstico do que um apartamento.
Confesso que um dos pontos de maior motivação na mudança é a questão de segurança. Casa de rua no Rio de Janeiro é muito perigoso. Minha mãe vive hoje em uma gaiola, com vários níveis de grade, cadeados, cerca concertina e cadeados.

O grande dia: ansiedade, caixas e a despedida de um ciclo
Dia da mudança - 21/09/2026
Chegou o dia!! O dia histórico!
Dia 21/09 é Dia da Árvore!
Dia 21/09 é o aniversário de casamento com minha amada Regina que está no céu!
Dia 21/09 é o Dia da Mudança da minha mãe saindo de uma casa onde viveu por mais de 50 anos!!
Amanheceu chovendo! Dormi mal a noite, ansioso com será o dia de hoje. Temeroso com o tempo, preocupado se a arca de madeira gigante vai sair da casa e entrar no apartamento, o que fazer com as coisas ainda soltas pela casa, como minha mãe vai reagir ao ciclone que vai rolar na casa com homens e caixas voando na frente dela e pensando em como providenciar o almoço de minha mãe no meio de tudo isso.
São 6h30 da manhã e minha mãe diz que quer usar a máquina de lavar para “lavar um pouquinho de roupa”. Olho para ela não acreditando. Acontece uma discussão e digo que a máquina não pode ser usada pois daqui a pouco ela terá que entrar em um caminhão.
Elissandro chega às 7h30 com mais 3 homens, antes do horário combinado. Excelente! Estaciona o caminhão na vaga que reservei no dia de ontem.
Às 9h da manhã minha mãe quer regar as plantas no quintal da frente da casa, onde o pessoal está passando com a mudança. Mais uma discussão. Ela está rabugenta, reclamando de tudo, obviamente perturbada com a “zorra” dentro da casa. Compreendo e tento me conter. Imagino que ela poderia contemplar tudo aquilo como o fim de um ciclo e o início de um novo ciclo, aproveitar o momento, curtindo o quão importante está sendo este dia, especialmente pela história dos anos recentes.
Momentaneamente vejo minha mãe relaxada, sentada no cantinho do sofá, observando as idas e vindas do pessoal carregando caixas e mobiliário, conversando com cada um deles e jogando conversa fora. Eu aprecio o momento. Ela está encantada com o pessoal da mudança, todos educados e muito cuidadosos com tudo.

São 11h da manhã. Pego minha mãe sentada em um canto, finalmente, com ar de despedida. Ela tem dificuldade de verbalizar o que sente, de ficar quieta, prefere espantar os sentimentos falando abobrinhas o tempo todo com os outros. Acho isso ruim, porque em vez de esvaziar, ela acumula.
Não se iluda, não imagine uma pessoa melancólica sentada na cadeira olhando as coisas. Não é isso! A melhor imagem é uma pessoa atônita vendo as coisas saindo da casa em caixas de papelão, embrulhadas em tecido, ansiedade máxima e com a sensação de mundo perdido. O sofrimento é evidente. Ela tem dificuldade de ver o mundo de possibilidades que vem pela frente, preferindo optar por se lamentar do que perdeu. Eu tento compreender, tento explicar que coisas precisam ir para novas coisas chegarem, que a vida é feita de ciclos e de constantes ressignificações, e que é isso que faz a vida ser tão formidável. Sinto que falta gratidão. Mas ela não faz por mal, tem pessoas que olham a parte cheia do copo e ficam agradecidas, porque sacia a sede. Outras olham apenas a parte que falta, e pensam que o que tem nunca é suficiente.

Rola uma nova discussão, mas que não insisto, apenas aceito. Ela quer levar uma panela com um restinho de caldo verde no colo.
Às 11h40 o caminhão parte. Lotado!! Não cabe mais nada no caminhão!! Parece que ele foi feito sob medida!! Elissandro e os 3 homens se ajeitam na cabine da frente do caminhão. Combinamos que vamos parar para almoçar. Entro no meu carro com minha mãe, também lotado, com a panela com o resto de caldo verde no colo. O novo apartamento é perto, fica a um pouco mais de 3 quilômetros de distância.
Às 11h50 chegamos no condomínio. Vamos todos juntos almoçar no restaurante ao lado, que é simples, porém com comida caseira e deliciosa. Todos de PF !! Sinto a minha mãe mais relaxada porque cumprimos a primeira parte, que me parecia a mais desafiadora.
Às 13h tem início o trabalho de descarga do caminhão. Elissandro me diz que a descarga é sempre muito mais fácil e mais rápida do que a primeira parte. O maior desafio foi a arca, que teve que entrar pela janela do apartamento, exigindo habilidade, mas deu certo!!

Às 15h termina a mudança!! Em apenas duas horas tudo já está tudo dentro no novo lar. Caixas para todos os lados, em um apartamento lindo e plenamente funcional. Elissandro me conta que vai ter tempo para dormir um pouco no final da tarde porque a noite estará com o caminhão na estrada a caminho de São Paulo. Que loucura! Nos despedimos, muito agradecido pelo trabalho dele e da equipe, que foram impecáveis, transformando o dia em uma boa experiência. Mas o dia ainda não terminou, tem muito ainda para rolar!
Começo a abrir as caixas. Acho a coleção de chaveiros do meu pai. São centenas de pecinhas que ninguém dá mais importância. Antigamente as empresas davam chaveirinhos como brinde, meu pai juntava e curtia. Mexer naquilo tudo me provoca uma imensa saudade. Coloco a chave do apartamento em um dos chaveiros, dando um novo propósito a uma lembrança tão querida.

Trabalho intensamente por mais de oito horas... sem descanso... ainda pilhado e energizado. Vou dormir somente perto de meia-noite. Passei a tarde e noite abrindo caixas, colocando coisas pela casa, tentando acomodá-las nos lugares que me pareciam fazer mais sentido. Minha mãe passa o tempo todo dentro do quarto dela organizando o seu grande armário.

A adaptação ao novo espaço e os primeiros sinais de conforto
Primeiro dia no novo lar – 22/09/2026
Minha mãe se sente meio perdida no novo lar.
Valeria faz uma surpresa e envia uma maravilhosa cesta de café da manhã de boas-vindas. Minha mãe fica encantada com a bolsa, que é o grande destaque. O presente cai muito bem para abrir o dia, provendo um momento de alegria e entusiasmo no meio de tantas coisas ainda por fazer.

O apartamento está plenamente funcional. Pequenos problemas vão ser resolvidos amanhã, quando o pessoal da obra vem aqui para fazer retoques e pequenos ajustes. Mas não há o que reclamar, tudo lindo e maravilhoso!
Hoje foi instalada a internet, o fogão foi convertido para gás natural, tudo perfeito!
Terminamos a noite com todas as caixas vazias, com quase tudo já acomodado em seus lugares. Nem na minhas projeções mais otimistas esperava essa possibilidade. Me sinto muito feliz. Certamente nos próximos dias e semanas as coisas mudarão de lugar, indo para seus lugares definitivos, conforme o uso e conveniência de minha mãe.

Segundo dia no novo lar – 23/09/2026
Agora de manhã vejo minha mãe arrumando as coisas de decoração. Ela pega uma toalha de mesa e coloca na mesa de jantar, alisando-a. Escolhe a posição da vaquinha de cerâmica na cozinha. Com o relógio de parede em mãos, avalia o melhor local. Pela primeira vez, de verdade, ela dá sinais de estar gostando do novo lar.
E no meio dessa arrumação, vejo uma cena que me faz sorrir: as cadeiras da mesa de jantar. Minha mãe tem essa mesa há mais de 10 anos e ela nunca permitiu que se retirassem os plásticos originais de proteção dos assentos para não sujar o tecido! É uma daquelas manias quase surreais, impossíveis de se compreender, que mostram que a essência e as peculiaridades da dona da casa permanecem intactas mesmo aos 94 anos.

Lentamente, a nova casa vai ganhando vida, tornando-se também um organismo, tal qual a antiga casa, respirando novas experiências, ganhando novas memórias, marcas e lembranças deixadas pela minha mãe.
Olho pela janela e vejo a paz e segurança do condomínio. Me faz bem a sensação. Vejo um gato em cima do teto de um carro, contemplando o movimento, sonolento e entediado. Ele é a melhor imagem de paz que eu poderia ter naquele momento.

Uma lição sobre ciclos, escolhas e amor
Passei os últimos anos tentando convencer minha mãe a não morar sozinha, não apenas por questão de assistência e companhia, mas também porque minha mãe não suporta o silêncio, a solidão e a contemplação. Ela gosta de conversar, qualquer assunto, não ficar quieta. Tudo que tentei não deu certo, até que surgiu essa alternativa de mudança de moradia. É o que temos e é o que deu. Ela fala que enquanto tiver lucidez e autonomia, ela quer ficar sozinha e em casa. A família respeita isso, mesmo que todos se sintam preocupados com a situação. Quando eu voltar para minha vida em Goiânia na próxima semana, voltarei a ligar para minha mãe duas vezes ao dia. O meu irmão também. Todos distantes, todos pertos.
Penso em tudo que vivi nestes últimos dias... nos últimos anos desde a partida do meu pai. Tem sido um processo contínuo de ressignificação, tipo montanha-russa, que testa e me evolui como ser humano. Sem ter consciência disso, minha mãe tem me ensinado muito neste tempo, coisas que preciso ficar atento quando ficar mais velho. É uma espécie de aula de vida, ampla em todos os sentidos, como tem que ser. Não busco pensar muito racionalmente e nem levar tudo em conta, minha filosofia é fazer o que é certo e o que precisa ser feito, independentemente de qualquer situação, sempre fazendo o melhor que posso e tentando entregar o melhor de mim, mesmo nos dias mais difíceis.
Para quem acha que 94 anos é sinal de falta de vitalidade, compartilho a imagem a seguir. A penteadeira repleta de perfumes, cremes e cuidados. Minha mãe adora perfumes!!! Por trás de toda a ansiedade da mudança e da teimosia perante o novo, existe uma mulher extraordinariamente viva, com uma vaidade intacta e uma vontade imensa de se sentir bem e linda todos os dias. É, talvez, a maior lição de vida de todo esse processo de mudança: o corpo não é um fiel espelho da alma, que parece permanecer jovem para sempre. Eu amo a minha mãe.




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