Morcegos no escuro, cordas invisíveis: o que o medo nos ensina
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São 23h e estamos hospedados em um chalé, na Chapada dos Veadeiros, Goiás. É junho de 2026, um dos melhores períodos para estar na chapada. Lá fora, o ar é puro, seco, e a noite é fria.
Distantes dezenas de quilômetros de Alto Paraíso e São Jorge, a natureza nos cerca por todos os lados, imersos no cerrado rupestre “in natura”, a 1.200 metros de altitude, de frente para o majestoso Morro da Baleia, que dorme sob um manto de céu estrelado.
A pousada é ecológica. O chalé é rústico, bem coerente com a proposta “selvagem e natural” da Chapada.

A noite em que os morcegos invadiram meu quarto
Eu e Valéria dormimos no silêncio absoluto, cansados e felizes depois do dia intenso que vivemos. Dentro do chalé, que tem sala e cozinha integradas, quarto e banheiro, teto sem laje, além do silêncio, reina escuridão total. A agenda na chapada é tipicamente diurna, sempre recheada de trilhas e cachoeiras, turbinando o sono restaurador da noite.
De repente, tenho um leve despertar, consequência da sensação de um leve bater de asas passando por cima da minha cabeça. Foi uma espécie de vento momentâneo, estranho, o suficiente para me acordar e disparar meu coração.
Abro os olhos e não vejo nada. Está tudo escuro. Penso: “será que isso foi um sonho?”
Cutuco a Valéria e sussurro: “Amor, acho que tem um pássaro aqui dentro”.
Valéria reage com um riso leve e misterioso, como se já soubesse o que estava acontecendo. Ou não se importasse. Ela nem se mexe na cama, continua imóvel. Naquele momento, eu a invejei. Depois, entendi que ela não estava ignorando o perigo, ela simplesmente não via perigo nenhum.
Estico o braço e pego a lanterna deixada estrategicamente em cima da cadeira ao lado da cama. Não acho os óculos.
Com a lanterna acesa, o feixe de luz varre o quarto. Regulo o facho para deixá-lo mais amplo. Imediatamente vejo uma mancha preta na parede. Exclamo: “Temos um morcego dentro do quarto”. Ele está imóvel, grudado na parede.
Levanto-me lentamente, me afasto um pouco, movimentando a lanterna na direção da cabeceira da cama. Logo vejo um segundo morcego também grudado na parede, pouco acima do meu travesseiro. Falo com a voz assustada: “São dois”.
Valéria puxa a coberta e se esconde debaixo dela.
Estou sem óculos. Minha miopia não permite ver os detalhes das manchas pretas. Não tenho coragem de ir até a cadeira ao lado da cama para pegar os óculos. Vou me aproximar demais dos morcegos.
Movimento a lanterna para baixo e vejo um terceiro morcego pousado no chão do quarto. Incrédulo, falo para Valéria; “Meu Deus, são três morcegos”.
Saio do quarto, vou para sala e ligo a luz do teto. Olho ao redor e identifico um quarto morcego grudado no beiral da porta de entrada do banheiro, poucos centímetros acima do solo. Solto um palavrão, e complemento: “Agora são quatro”.

Vejo uma vassoura ao lado da porta da entrada da sala. Pego a vassoura e, destemido, volto ao quarto, pronto para uma possível batalha, porém não sei muito bem o que fazer. Minha mente monta um filme de terror: uma noite em claro, uma luta desesperada com a vassoura em mãos, o chalé tomado e a vida ameaçada por criaturas pequenas.
Minha racionalidade interrompe o filme em minha mente. Não faz sentido fazer qualquer movimento. Os morcegos estão quietinhos, qualquer ação brusca os fará voarem pela sala e quarto, aí sim seria o caos, especialmente por estar trancado com eles.
Penso nas alternativas e encontro uma boa saída. Pego o celular e ligo para o Manoel, dono da pousada. Faço fotos (uma delas ilustra a capa deste artigo) e envio para ele. Sua resposta me soa salvadora, quase um bálsamo: “Estou indo aí para resolver isso. Não faça nada, fique quieto para que eles continuem onde estão. Não ligue ou desligue qualquer luz do chalé”.
Os minutos se arrastam. A sensação de impotência é absoluta. O desconforto é notável. Manoel demora, a casa dele fica longe dos chalés, no outro lado da reserva que circunda a pousada. Já frequento a Pousada do Morro da Baleia há anos. Adoro tudo nela. É excepcional. Manoel e Michelle transformaram-se em grandes amigos. Temos profunda admiração mútua.
Manoel chega como um herói, lembrando um dos personagens do filme Caça Fantasmas. Vem com uma lanterna na cabeça, decidido e certo do que precisa ser feito. Tem vários pequenos sacos plásticos na mão. E me fala: “Preciso de 8 sacos plásticos. São 2 para cada morcego”.
Valéria continua deitada, tranquila, com a coberta cobrindo seu corpo inteiro, inclusive cabeça. Não estou certo se ela acompanha o nosso papo.
Manoel envolve cada mão com um saco plástico, lentamente se aproxima do primeiro morcego e pega o animal com facilidade. Parece que o animal deixa-se ser pego. E assim ele faz com cada um dos 4 morcegos. Todos são capturados rapidamente e com muita facilidade.
Cada animal fica preso dentro de dois sacos plásticos, um dentro do outro. Manoel diz que vai soltá-los do outro lado do terreno, bem distante, daqui há algumas horas. Ele comenta que nunca viu algo assim: quatro morcegos pousados e quietos. Conta que já teve episódios de um só morcego, voando, mas nem isso é comum nos chalés da pousada. Pediu para chamá-lo se acontecesse de novo.
Brinco com ele dizendo que ele é o “Bat Manoel”... “Bat Man”... “Batman”! Tento mostrar leveza e autocontrole quando ainda estou lidando com meus medos.
Com todas as luzes ligadas, dou uma geral no chalé inteiro e não vejo mais nenhum morcego. Manoel foi embora, tão rápido quanto chegou.
A operação toda, que na minha mente duraria uma eternidade, levou quinze minutos.
Quando a crise é uma miragem
Volto para a cama com o coração ainda acelerado, enquanto Valéria dorme numa boa. Com o sono por vir, penso no que vivi minutos atrás, no quanto os nossos pensamentos nos impactam.
A crise era uma miragem. E, no entanto, eu a havia criado, regado e tornado real. Quando vi os morcegos, me bateu um desespero. Eu não vi solução. Me imaginei com a vassoura em punho tentando acertar os morcegos de forma infrutífera. Pensei que seriam horas de desespero, sem solução, que a noite estava perdida e que seria impossível colocar a cabeça no travesseiro de novo com medo de surgir um novo morcego.
“'Sofremos mais na imaginação do que na realidade.” - Sêneca
Cá estava eu na cama, pensando e com o sono chegando. Pego um livro para ler e em dez minutos já volto a dormir de novo. Por precaução, deixo as luzes internas do chalé ligadas. No caso de surgir um novo morcego, será mais fácil de ver.
A madrugada é tranquila, nada mais acontece.
Na manhã seguinte, o tema do café foi a experiência dos morcegos. Mas não era verdadeiramente isso que ocupava a minha mente. Dentro de mim só vinha o pensamento de como aquela situação que parecia supercomplexa e insolúvel, ter sido superada em poucos minutos.
As crises que criei ao longo da vida
Me vi pensando na minha trajetória. Quantas outras "crises" em minha vida foram apenas morcegos voando no escuro? A demissão que parecia o fim de tudo, o diagnóstico de câncer da Regina que soava como uma sentença de um futuro repentinamente roubado. Em todas, a mente amplificou a ameaça, transformando pequenos morcegos em dragões, eu me via no fundo de um poço, abraçado com eles, sem saída ou solução. Pensei também nas situações em que pedi ajuda e Manoéis me salvaram.
“Não são os acontecimentos que perturbam os homens, mas os juízos que eles fazem sobre eles.” - Epicteto

A corda e a metáfora do limite
Naquela mesma manhã, ainda com os morcegos voando dentro minha mente, descobri que a Chapada tinha outros planos para mim. Fomos para a Cachoeira do Segredo e lá encontrei uma nova metáfora.
Partimos para a cachoeira. Depois de 3,5km de trilha, chegamos à monumental cachoeira de 130 metros de altura. A água cai como uma poeira em um lago de cor de esmeralda. A paisagem é tão impressionante que não parece real, é beleza bruta e intocada.
A Cachoeira do Segredo fica na Fazenda Segredo, propriedade particular. O local é muito bem preservado e cuidado, com um salva-vidas por conta do lago profundo, de águas verdes e cristalinas.
"Não passe da corda"
Ali, cortando a paisagem e prejudicando as fotos, cordas inconvenientes limitavam o acesso a uma parte da cachoeira e do lago. Havia placas com a seguinte inscrição: “Não passe da corda”. A corda é uma linha de civilização no meio do selvagem.
Minha primeira reação foi infantil: fiquei com vontade de transgredir, ultrapassar os limites da corda, até porque alguns trechos não me pareciam verdadeiramente perigosos. Porém, como ser disciplinado e obediente que sou, contive o impulso.
Fui falar com o salva-vidas para saber do motivo daquela corda. Ele me deu uma resposta protocolar: “os visitantes não podem ultrapassar o limite da corda por imposição da segurança”. E complementou dizendo que, tempos atrás, quando a corda ainda não existia, era comum a ocorrência de acidentes por conta de pessoas imprudentes, que agiam perigosamente. E disse que se todos tivessem bom senso, a corda não seria necessária.

Acompanhei visualmente os movimentos de meu filho e minha nora, que estavam conosco e que são mais aventureiros. Fiquei curioso se eles tentariam ultrapassar as cordas, andando sobre as rochas ou nadando na parte restrita do lago. Mas eles respeitaram os limites, nem insinuaram qualquer movimento além das regiões autorizadas.
Na trilha de volta, andando por mais de 3 quilômetros, a imagem da corda se fundiu com a noite dos morcegos. O pânico da noite anterior foi uma corda invisível que me amarrou. Eu me senti acuado, preso em um chalé com quatro "predadores", quando a única prisão era a minha mente. Pensei também em como nos colocam cordas a vida toda e, depois, como as colocamos em nós mesmos.
“A maior parte do que tememos nunca acontece." – Sêneca
A história do elefante indiano e o reverso da corda
Lembrei de uma história antiga, que já escrevi aqui no blog, sobre o elefante indiano, aquele que, quando bebê, é amarrado a uma corda forte e, mesmo depois de crescer e se transformar em um animal gigante, nunca mais tenta se libertar, porque sua mente foi condicionada a acreditar que a corda é mais forte do que ele.
A história acima é clichê, eu sei, mas vivi o reverso dela naqueles dias. Eu não estava preso a uma corda real, mas ao pânico. E o pânico, ao contrário da corda do elefante, só existia porque eu acreditava nele. Por outro lado, eu vi meu filho e minha nora, livres, contemplando a cachoeira e suas cordas sem serem consumidos pela vontade de rompê-las. A corda, para eles, era apenas um aviso, não uma prisão.
As cordas que colocamos em nós mesmos
A corda é a metáfora do que acontece em nossas vidas. Recebemos limites, controles, incorporamos crenças e, aos poucos, criamos cercadinhos em nossas vidas, impostos por pessoas, muitas delas que nos amam e nos querem bem, mas também por nós mesmos. Eu tenho um monte de exemplos pessoais.
Cordas que herdei e cordas que rompi
Quando eu era criança e adolescente, minha mãe me alertava dizendo que “andar de motocicleta” era muito perigoso. Eu incorporei isso e criei uma crença limitante. O resultado é que até hoje nunca andei de moto na vida, nem no carona. Ainda dá tempo de reverter isso, né?
Quando a Regina fez uma pequena tatuagem em seu corpo em minha homenagem, eu reagi muito mal. Achei aquilo um absurdo pois eu tinha preconceito com tatuagens. A minha crença é que não deveríamos riscar o corpo, e eu nem sabia muito bem o motivo disso. Hoje eu mesmo tenho várias tatuagens. Enfim, esta foi uma corda que rompi.
O que aprendi com a maturidade
Nos últimos anos eu tenho vivido um processo de ressignificação profunda. Tenho rompido muitas cordas, como na experiência do Santo Daime e meu transplante capilar. Apesar desse meu “tom vencedor”, confesso que tenho muito ainda o que fazer. Me sinto completamente envolvido por cordas, algumas visíveis e muitas outras invisíveis, que são as que mais me preocupam, pois limitam a minha consciência e o meu potencial de autoanálise e autodesenvolvimento.
Não sei dizer se tais cordas invisíveis são crenças, medos, vieses, preconceitos, insegurança ou algo diferente. O que sei é que depois dos 60 anos de idade eu me sinto mais consciente e instrumentalizado, intelectual e emocionalmente, para enfrentá-las. A maturidade me deu uma liberdade que a juventude nunca poderia oferecer: a de não precisar provar nada para ninguém. Posso ser infantil, inconsequente, impaciente... e está tudo bem. Não porque eu mereça, mas porque finalmente entendi que a única aprovação que importa é a minha.
A lição que morcegos e cordas me deixaram
A noite dos morcegos não foi sobre morcegos. Foi sobre a minha capacidade de transformar o inofensivo em ameaça. A corda na cachoeira não era sobre limites. Era sobre a minha tendência a ver barreiras onde há apenas escolhas.
Juntos, morcegos e cordas me ensinaram a mesma lição: o medo, muitas vezes, é um lugar onde a gente se prende, não um lugar onde a gente está.

O segredo de aprender com os pequenos fatos da vida
Dias depois de ter voltado da Chapada, eu conversei com um querido amigo sobre as minhas aventuras. Obviamente que morcegos e cordas entraram no papo. Em determinado instante ele me perguntou: “Sua capacidade de leitura do cotidiano me surpreende. Como conseguiu tirar lições dos morcegos e das cordas que, para a maioria, seriam simples fatos da vida?”.
O teste do gorila invisível e a atenção plena
Curiosamente, dois dias depois, surgiu na minha timeline do Spotify um episódio do podcast “BBC Lê” (excelente, recomendo! Está disponível também no Youtube) chamado “Cegueira por desatenção: por que às vezes você não vê o que está diante dos olhos”. Nele, comentam o conhecido “teste do gorila invisível”: participantes observam um vídeo e devem contar passes de basquete entre pessoas. Concentrados na contagem, cerca da metade não percebe um homem fantasiado de gorila atravessando a cena.
A pergunta do meu amigo voltou à minha mente como um clarão. A resposta me pareceu exatamente esta: vivemos uma vida corrida, com sobrecarga de estímulos, não temos tempo nem contexto para observar com atenção e profundidade o que está ao redor. Talvez isso tenha a ver com “viver a vida” com mais presença e intensidade. Infelizmente, na maior parte do tempo, as pessoas não dedicam atenção aos pequenos fatos da vida porque estão com a mente em outro lugar.
Como desacelerar para enxergar melhor
Minha capacidade de observar, aprender e fazer conexões aumentou muito nos últimos anos, e não foi algo intencional. Apenas reduzi o número de atividades, criei menos expectativas, desacelerei, perdi a ansiedade com o tempo e ressignifiquei planos e sonhos. Passei a flertar com o desapego. A agenda pessoal passou a ser minha. Quando faço algo, procuro vivê-lo dedicadamente, desde as tarefas mais complexas até as mais simples, como lavar pratos. Gosto de momentos a sós, em silêncio, apenas observando. Gosto da lentidão, da contemplação, dos pequenos detalhes.

O que o medo nos ensina: as perguntas que a Chapada me deixou
A viagem na Chapada dos Veadeiros foi maravilhosa, energética e rejuvenescedora. Eu sempre volto de lá melhor. Quase sempre a Chapada me dá respostas ou caminhos, mas desta vez foi diferente, ela me deu duas perguntas poderosas:
Quantas cordas na minha vida são, na verdade, morcegos no escuro?
Como viver as situações da vida que parecem ameaçadoras só porque não as enxergo direito?
Talvez o verdadeiro propósito não seja encontrar respostas, mas aprender a conviver com as perguntas
“O medo é uma corda que a gente mesmo amarra.” – Alan Watts
O que realmente importa
Como falei antes, com 65 anos me sinto forte para espantar morcegos e romper cordas, questionar preconceitos, derreter vieses e expandir minhas possibilidades e potencial. Não se trata de viver sem cordas, talvez isso seja impossível. Trata-se de reconhecer, a cada dia, uma delas, testar sua resistência e, se for possível, dar um passo além.
Aprendi com a Valéria naquela noite. Ela apenas se cobriu, confiou e esperou. Ela sabia que, cedo ou tarde, a luz se acenderia e os morcegos se revelariam pelo que verdadeiramente eram. Não precisava lutar. Não precisava temer. Bastava o tempo.
O que realmente importa não é a ausência de medo, mas a capacidade de não transformá-lo em uma prisão. Não é a coragem de romper todas as cordas, mas a sabedoria de saber quais delas são reais, e quais são apenas morcegos voando no escuro da minha mente. Afinal, o que o medo nos ensina é que ele só tem o poder que nós mesmos lhe damos.
“O que você resiste, persiste”. – Carl Jung




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